domingo, 14 de março de 2010

Encanto feminino



Há rituais de todos os dias: uns são públicos, outros estritamente privados. E porque são privados a intimidade dos comportamentos só diz respeito ao próprio, no entanto, muito do que acontece é apenas um mero registo de modos de estar, sem qualquer relevância e interesse significativo. Mas há gestos que têm o lado estético e cultural que merecem, confesso, a minha admiração – são os gestos só possíveis no universo feminino, que transbordam de encanto, quando um homem olha com olhos de ver. E mais não digo.

Esta tela é um olhar por gestos tão comuns e tão femininos que transmitem sempre beleza e fascínio. É simples e belo o modo como se prepara o ritual decorativo do corpo de uma mulher. É o gesto fortuito que gosto de captar e retratar nas minhas obras pictóricas.
Aqui servi-me do modelo procurando representar um instante e com as cores quentes criar uma atmosfera serena e viva. Muito desenho das formas e estudos de cor até à conclusão desta tela descrevem o caminho percorrido. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Fernando Pessoa, in “Livro do Desassossego”:

“Todo o gesto é um acto revolucionário.”

E vos deixo com a minha última pintura e a música de Puccini, a voz de Yang Huang na ária Un Bel di vedremo” da ópera “Madame Butterfly”.


sábado, 13 de março de 2010

Magia dos espaços



Há locais mágicos. É a beleza natural ou construída que fazem com que o espaço tenha um encanto que nos leva a gostar de estar, vezes e vezes, nos mesmos sítios como se fosse a primeira vez. É sempre emocionante quando nos encontramos nos sítios que mexem connosco. Uns é apenas pela associação de ideias, outros pela história e pelas emoções que esses momentos passados nos provocam, outros ainda porque sabemos encontrar o que buscamos. E buscamos o silêncio, ou a agitação das multidões, ou a luz, ou a brisa do mar, ou isto e mais aquilo. Seja o que for, os locais mágicos são apenas locais que nos fazem gostar de estar. E ainda bem.


Esta tela é um passeio, como tantos outros, onde a comunhão com a brisa, a luz, a arquitectura, o silêncio e tantos outros motivos nos levam a andar por aí, pelos sítios do costume, em busca da magia dos espaços.

Cores previamente escolhidas e um desenho rigoroso na feitura da malha arquitectural fazem a história desta pintura que é resultante do meu desejo de retratar as terras por onde andei. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Victor Hugo:
“Tudo quanto é belo manifesta o verdadeiro.”

sexta-feira, 12 de março de 2010

Amizades




Mal vamos nós quando não conquistamos a amizade de alguém. Não ter um aconchego nos momentos certos é uma desgraça e, então, nada está bem, tudo está errado. A amizade é ter sempre alguém que nos compreende e gosta da nossa companhia. Pontos comuns de interesse e conveniência fazem milagres neste andar por aí, solitário, no meio da multidão. É a sociedade do século XXI, sem dúvida nenhuma. Infelizmente.

Esta tela é uma representação da cordialidade de instantes do convívio, onde impera, talvez, a amizade e o interesse pela camaradagem, com o melhor e o menos mau, das relações humanas.
Muito tempo demorei a fazer esta tela que, paulatinamente, foi sendo edificada com as construções e destruições comuns a uma pintura, ou seja, formas que nascem e morrem, e cores que sobrevivem após muitas buscas. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de de um texto judaico extraído de “Moisés Maimônides”:

“O bem-estar na vida obtém-se com o aperfeiçoamento da convivência entre os homens.”

quinta-feira, 11 de março de 2010

O banho



É uma necessidade vital. É uma dependência. É uma obrigação. É um desejo. É um prazer. É tudo isto e muito mais o que obtemos e necessitamos do nosso banho diário. E assim ritualizamos um comportamento, e quando, por imperativos múltiplos, não conseguimos repetir os mesmos gestos, as mesmas práticas, as mesmas necessidades, tudo parece nada funcionar bem e, no entanto, é apenas a água que percorre o corpo. Água que tem o simbolismo e a riqueza que só a vida nos dá. Pobres os que não sabem, ou não podem, todos os dias, saborear um belo banho.

Esta tela é mais um contributo na História da Pintura para a ilustração do banho. Muitos foram os artistas como Rembrandt ou Degas que nos deixaram obras-primas sobre este tema. Aqui, num contexto minimalista e num enquadramento “boteriano”, procurei, nuns tons cinzas, mostrar a nudez num contexto onde o banho está insinuado. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Noel Clarasó:

“O corpo, se for bem tratado, dura uma vida inteira.”

quarta-feira, 10 de março de 2010

A banda



É um inferno. É insuportável. Já ninguém é indiferente. É a desgraça do costume: impostos e mais impostos, mentiras e golpadas, desemprego e instabilidade social, miséria e desencanto. Tudo isto é o nosso dia-a-dia. Felizmente que há o outro lado: o lado cultural. O lado das tradições. Faz parte. É na aldeia; é na cidade; é em todo o lado que a banda aparece, levando música pelas ruas e ruelas, para encanto de todos. Crianças, mulheres e homens tocam as melodias de sempre. E sempre são bem recebidos e admirados pela magia que a arte dos sons transporta consigo. Viva a música e esqueçamos, por momentos, o dilúvio.

Esta tela, de grandes dimensões, feita nos anos 90, retrata um grupo de tocadores que um dia vi. Não resisti a homenagear quem tem o dom de levar aos outros a beleza e o fascínio dos acordes musicais. Infelizmente, nem sempre consigo concretizar os meus projectos. Aqui, apesar do empenho outros compromissos foram adiando, adiando e adiando a conclusão desta obra que, de tanto esperar, acabou por ser concluída... sem ser concluída. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Aristóteles:

“A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição.”

E vos deixo com música filarmónica e a Banda da Guarda Nacional Republicana.


terça-feira, 9 de março de 2010

Olhar para o lado



Há os que não se interessam. Há os que vivem sem nada saberem. Há os que tudo lhes passa ao lado. E há os outros. Os que olham e só vêem corrupção, desgraças e um futuro negro. E é neste caminhar que convivemos entre a preocupação e o “deixa andar”. Somos assim. Ponto final.

A tela retrata um momento onde a pose descontraída atesta o modo de viver, longe dos preconceitos e perto da alegria do estar. Este trabalho, de pequenas dimensões, é um dos muitos estudos prévios que faço quando, a priori, ando em busca de ideias para novas telas. Pincelada rápida e cores simples estão na substância pictórica desta obra. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Christian Hebbel, in “Diários”:

“Quanto mais se vive, menos se sabe por que se vive.”

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dormir



Umas vezes de um modo, outras surpreendentemente tão nos antípodas. Somos assim. Convencionais de acordo com o protocolo e libertinos quando nos deixam. As máscaras são muitas e os medos ainda maiores dominam o nosso viver. É preciso respeitar condutas e chefias mesmo que sejam a negação do que pensamos. É o preço a pagar por um bocado de pão. O resto é conversa…

Esta pintura em tela é um daqueles retratos que nos mostra um momento intimista longe das normas e condutas fundamentalistas. Cada instante é único e dele devemos saber tirar partido, contrariando uns e outros se o nosso querer apontar outro caminho. As cores suaves numa posição do dormir defeituoso acentuam a curvatura da composição que é mais um olhar pela natureza humana, aqui numa acalmia sem as tormentas e as desgraças de todos os dias. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a música de Paganini e o “Capricho nº24”.