domingo, 21 de fevereiro de 2010

Passeio dos tristes



Hoje é domingo. Hoje é o dia do passeio dos tristes. Hoje é vê-los passar de carro com destino aos sítios do costume, olhando, vezes sem conta, as mesmas paisagens e as mesmas gentes ou, andando pelos centros comerciais, matando o tempo e saboreando os prazeres do consumismo. É assim os passeios de domingo.

Esta tela é um retrato dos que percorrem caminhos por aqui e por ali. É mais um olhar por Lisboa que encanta quem descobre o labiríntico percurso das colinas e dos miradouros. Para fazer esta pintura precisei de estar e saborear o local e sentir a atmosfera circundante. O uso da perspectiva e das tonalidades visam captar a essência do espaço e identificar as características arquitectónicas e também personalizar um modo de viver. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Henri Amiel, in “Diário Íntimo”:

-“ Uma paisagem qualquer é um estado de alma.”


E vos deixo com a voz de Carlos do Carmo, a letra de Ary dos Santos, a música de Paulo de Carvalho: “Lisboa menina e moça”.


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pede o desejo



Pede o Desejo, Dama que Vos Veja

Pede o desejo, Dama que vos veja:
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado.
Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,
Que não queira perpétuo o seu estado.
Não quer logo o desejo o desejado,
Só por que nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana:
Que, com a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza.

Assim meu pensamento, pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre e humana,
Foi, Senhora pedir esta baixeza.

Luís Vaz de Camões


Esta tela procura ser a representação do desejo entre dois jovens que, de acordo com a nossa liberdade cultural, os nossos usos e costumes, saboreiam o prazer da vida e da descoberta dos afectos. Como sempre cada pintura é uma enorme luta entre as formas e as cores “certas”. Pintar é, em última análise, um jogo de distribuição de cores numa superfície. Para obter o resultado desejado é uma batalha pela vida toda, com muita angústia e muita satisfação, mesmo que falando sozinho. História da Minha Pintura.

E vos deixo hoje com a musica de Mozart, da ópera Don Giovanni e a partitura La ci darem la mano com as vozes de Placido Domingo e Kathleen Battle.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Modelo



Num qualquer dicionário da língua portuguesa podemos encontrar esta definição para a palavra modelo:
modelo, s.m. forma típica para reproduzir ou imitar; profissional que desfila ou posa perante um público ou fotógrafos, com objectivos de promoção de marcas, roupas, etc.”

Esta é a última obra que pintei. É uma tela que retrata mais um dos meus modelos. Aqui, como sempre, sou eu que defino as posturas e o enquadramento das personagens. Muitos foram os que já retratei em desenhos e pinturas, porque adoro fazer retratos. Adoro captar as particularidades únicas de cada um. Não é nada fácil a identificação, donde é preciso muito treino, muita observação e muita determinação. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Thomas Eliot:

“Todos os casos são únicos, e muito similares a outros.”

E vos deixo com a voz de Renee Fleming e a música de Strauss : “Four Last Songs”.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Recanto



Todos gostamos de ter o nosso recanto. Precisamos muito de estar no sítio certo com as comodidades que nos seduzem. E vendo bem, basta tão pouco para nos sentirmos confortáveis. São sempre coisas simples que nos enchem de prazer: é a música; é a luz; é a configuração do espaço; é as gentes; é o silêncio quando precisamos de estar sós, em suma, é tão pouco e é tanto. No nosso recanto.

Esta imagem é um recanto do meu ateliê que me seduz, porque nele encontro o espaço ideal para me sentir bem. E para estar bem tenho de trabalhar muito. Preciso de acreditar que tenho uma missão a cumprir e que esse desígnio é a chave da razão do existir. Aqui as tintas e as telas invadem o espaço e dominam-no, porque o que se pretende é que haja lugar ao prazer da criação. E a minha vida tem sido a luta por fazer mais e melhor. História da Minha Pintura.

Recordo hoje palavras de Textos Bíblicos, in “Evangelho de Marcos 9,22”:

“_ Tudo é possível para aquele que crê.”

E vos deixo com a música de Puccini, a voz de Ying Huang e da ópera “Madame Butterfly”: “Un bel di vedremo.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Decisões



A nossa vida é feita de contínuas decisões. Vamos por aqui e não por ali. Queremos isto e não aquilo. Optamos por esta solução e não por outra. E, porque assim é, há os conflitos do costume, as zangas e as amizades que todos temos. E é neste caldo que, para o melhor e para o pior, tomamos decisões tão inquietantes. Depois, os tempos dirão sempre se foi certo ou errado. Há tantos imponderáveis que ditam a decisão acertada. É sempre o futuro, afinal, que esclarece e não a nossa cabeça, porque como se sabe, cada cabeça, sua sentença.

Esta tela é a representação de um espaço onde há lugar para o pensar. Aqui as decisões podem ser ponderadas e, no entanto, por muito que se pense o desfecho é quantas vezes uma incógnita. Tal como a vida de cada um. Esta pintura em tons cinza procura conferir profundidade num ambiente onde a natureza ocupa o seu lugar timidamente. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Bertold Brecht, in “Um Homem é um Homem”:
"-De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida.”

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Máscaras



É o último dia da festa carnavalesca. Todos os anos, os do costume fazem a festa e é simples: máscaras e posturas contrariando o dia-a-dia. Folclore quanto baste para esquecer a normalidade dos comportamentos. “Nada” parece mal nesta quadra. E a vida continua depois do fingimento que dura três dias. Aqui e ali, perto e muito longe é o prazer da fuga que caracteriza estes dias, onde se critica muito e se esquece tudo, porque é de brincadeira que se trata. Não vá o diabo tecê-las...


Esta pintura é mais um olhar pelo Carnaval, aqui com referências a objectos típicos da quadra. E como é norma outros elementos procuram criar leituras díspares. Esta pintura com cores fortes e complementares procuram gerar um ambiente intrigante e inquietante. Quanto ao processo de execução, esta tela com referências a Botero tem formas e cores propositadamente exageradas. História da Minha Pintura.


Recordo hoje as palavras de Vergílio Ferreira, in “Conta Corrente 5”:

“Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.”


E vos deixo com os Caretos.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carnaval



É tempo da máscara. É tempo do fingimento. É tempo da folia. É sempre tempo quando um homem quiser. Agora é o tempo de ultrapassar a realidade e vestir outras roupagens, no jogo do faz de conta, tão usual no comportamento dos nossos dias. E é com estas posturas reais e virtuais que convivemos para o bem e para o mal, com gente boa e do piorio. É assim aqui e agora. Na nossa terra.

Esta tela procura retratar este tempo carnavalesco onde se escondem as mentiras e as máscaras que cada um transporta neste viver. Esta pintura, feita faz tempo, da série “boteriana”, é um olhar crítico onde as formas exageradas e as cores fortes buscam um ambiente de excessos. Rigor métrico na concepção da estrutura e misturas de cores complementares fazem parte desta obra. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música do Brasil e de Chico Buarque e o samba tão peculiar deste período carnavalesco, aqui com a voz de Nara Leão e “Quando o Carnaval Chegar”.