domingo, 31 de janeiro de 2010

Espelho meu



A imagem - a nossa imagem - é o que somos: muito ou pouco. Hoje, como nunca, o que conta é a imagem. Um gesto, uma atitude menos pensada, uma palavra, um modo de estar, uma crítica podem ser, por si só, o bastante para construir ou deitar abaixo um percurso de vida. E, depois, neste fundamentalismo social tudo pode acontecer. Ninguém está livre das intrigas, das malícias e do bota-abaixo. É o nosso tempo. O tempo dos oportunistas e salvadores da pátria. E basta uma imagem para idolatrar ou não. Uma simples imagem.

Esta tela é um retrato onde as imagens reais ou virtuais se confundem. Aqui utilizei a representação de um espelho que reflecte uma imagem que comunica ou não. Coisas da vida e da arte. As pinceladas e o desenho repentino caracterizam esta faceta dos anos 90. Neste período o desejo de trabalhar era imenso, porque queria dizer tanto sem dizer nada. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Johann Goethe:

“Falar é uma necessidade, escutar é uma arte.”

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sonhar de novo



Sonhamos muito. Sonhamos com desejos e com angústias. Sonhamos. Sonhamos todos os dias, mesmo pensando que não sonhamos. E ao sonhar construímos quimeras que o tempo dirá se foram fantasias, ou realidades antecipadas. Infelizmente quando se sonha muito e nada resulta é enorme a tristeza . Tudo parece perdido e o desencanto habita em nós. O tempo e a serenidade, talvez nos tragam de volta a alegria e o prazer das coisas, quando a esperança se foi. É a vida. Com os bons e os maus momentos.

Esta tela retrata um sono onde a panorâmica da grande cidade mergulha na envolvência do sonho. Servindo-me de um modelo pintei este retrato e, em simultâneo, como pano de fundo - Lisboa. Porque a pintura não é a realidade, de quando em vez, fujo (tal como nos sonhos) para representações espaciais sem a ordem natural das coisas. Aqui quis pintar em tons rosa o casario de uma cidade branca. Coisas da pintura…História da Minha Pintura.

E vos deixo com as palavras de Marcel Proust:

“Mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la, embora vivê-la seja também sonhar.”

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Bancos de jardim



Há sempre um banco de jardim que espera por nós. E é neles que descansamos (quando descansamos) das caminhadas ou do desejo de contemplar, por momentos, quem passa ou a natureza circundante. E há tanto banco de jardim à nossa espera…

Esta pintura em tela retrata um banco de uma zona ribeirinha de Lisboa tão conhecida das suas gentes. Aqui numa pincelada com relativa proximidade formal procurei criar um jogo de cores e formas que fossem apelativas. Para fazer este trabalho bastou-me ter levado um caderno e no desenho que fiz, in loco, (como faço muitas vezes) apontei as cores próprias do meio. A pintura exigiu também rigor no desenho e um cuidado quase milimétrico nas pinceladas. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Lao-Tsé:

“Nada é impossível a quem pratica a contemplação. Com ela, tornamo-nos senhores do mundo.”

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

As grandes coisas



Todos queremos fazer grandes coisas. E fazemos grandes coisas quando pensamos e ajudamos os outros; quando deixamos um legado para os nossos e para as gerações vindouras; quando lutamos por ideais sem fomentar o ódio e o rancor; quando deixamos de olhar para o nosso umbigo e pensamos com olhos de ver; quando dizemos não à hipocrisia; quando olhamos o nosso semelhante como se fosse o nosso retrato. Isso, sim, são grandes coisas.

Esta aguarela é o retrato da figura maior da poesia portuguesa e do simbolismo da luta por uma nação com séculos e de muitas lutas (certas e erradas) que fazem a História deste povo. Este trabalho nasceu para responder a um pedido editorial. Tecnicamente o processo é simples: primeiro prepara-se o papel ( lavado com água) e depois o desenho com o lápis de cor amarela ( de preferência) para a construção das linhas e finalmente num prato branco misturo as tintas. História da Minha Pintura.

E vos deixo com o soneto “Cá nesta Babilónia” de Luís de Camões:

“ Cá nesta Babilónia, donde emana
Matéria quando mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião! "

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

As pequenas coisas




A vida é feita destas coisas. Das coisas que gostamos. E gostamos de pequenas coisas. Pequenas coisas que são grandes coisas. Coisas que nos deliciam e nos situam connosco e com o mundo: fotografias que trazemos na carteira dos que amamos; lembranças dos sítios que nos deixaram saudades; objectos que nos identificam; formas e cores que constituem a nossa estética; espaços de lazer onde mais gostamos de estar; o cafézinho da manhã; e tantas, tantas outras coisas que, sem elas, ficamos perdidos. Eternamente perdidos.

Esta tela é um retrato de um espaço caseiro onde os objectos circundantes definem um modo de vida e de gosto. Aqui, como sempre, utilizei a perspectiva com dois pontos de fuga. Quando as telas são grandes trabalho no chão com fios (para construir as linhas das perspectivas), régua e esquadro na feitura do desenho. Depois, depois é pintar, no cavalete, numa luta pelas cores “certas” até encontrar os tons apropriados. Cada pintura é sempre um jogo de construções e destruições. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de John Watson:

“ O que nós somos, é o que fazemos, e o que fazemos é o que o ambiente nos faz fazer.”

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A inveja




Não há nada a fazer. Somos o que somos. As leis da vida e dos homens não se regem pela justiça, nem pela bondade, nem pela sabedoria. E porque assim é, vêm ao de cima os nossos males. Um deles é a inveja. Invejamos. Invejamos o sucesso dos outros. Invejamos tanto. E de tanto invejar até odiamos e inventamos histórias mil de escárnio e maldizer. É a inveja a triunfar. Não há nada a fazer.

Esta aguarela é o retrato social do conviver, onde existe o melhor e o pior no relacionamento humano. Este trabalho foi feito para ilustrar um livro (que não foi editado) e que tentava captar características de personagens tipificadas. Cores suaves numa abordagem a Lisboa fazem a história desta obra que me cativou porque retratei poetas da nossa praça. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Pierre Corneille:

“Nunca um invejoso perdoa ao mérito.”

E vos deixo com Mozart que criou muitas invejas entre os seus pares pela genialidade que nos maravilha sempre que escutamos a sua obra. Aqui “Le Nozze di Figaro” no final do 2º acto.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Balelas








Balelas. Podem dizer o que quiserem. Podem fazer isto e aquilo. Podem inventar tudo. Podem mover montanhas mas, há a verdade das coisas, independentemente das leis dos Homens. Leis que valem o que valem. E valem muito pouco quando condenam inocentes e libertam criminosos. E, quando assim é, o que conta são os factos. Factos são factos. O resto são balelas. Balelas.


Estes desenhos são a expressão do jogo que, como todos os jogos, se compõe de emoção e de desejo de conquista onde se luta, umas vezes, com a verdade e, outras, com a falsidade . Aqui traços rápidos procuram registar o movimento e as características das posturas dos intervenientes. Para captar a síntese do jogo procurei apenas a essência formal utilizando a tinta-da-china e o papel. História da Minha Pintura.


E vos deixo com o poema "Mentiras" de Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas":

"Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da Feroz realidade...
Não palpita d`amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais

Que um desengano que nos custa tanto!"