domingo, 24 de janeiro de 2010

Sonhar




“ O que sonhei e antes de vivido
Era perfeito e lúcido e divino,
Tudo quanto sonhei se foi perdido
Nas ondas caprichosas do destino.

Que os fados em mim mesmo depuseram
Razões de ser e de não ser, contrárias,
Nas emoções que, dentro de mim, cresceram
Tumultuosas, carinhosas, várias.

Naqueles seres que fui dentro de um ser,
Que viveram de mais para eu viver
A minha vida luminosa e calma.

Se desdobrarem gestos de menino
E rudes arremedos de assassino.
Foram almas de mais numa só alma. "


Francisco Bugalho, “Tudo quanto sonhei se foi perdido”, in “Dispersos e inéditos”.


Esta pintura é o retrato de um dormir. A serenidade, a elegância e a beleza fazem parte desta representação onde a liberdade dos caminhos do sonho nos leva sempre por aí, felizmente. Este trabalho é resultante de poses estudadas, de modelos escolhidos e de uma temática que me seduz. Selecciono as cores e o enquadramento para enfatizar conceitos estéticos e depois é o costume: paciência, gosto e vontade de criar formas com as regras dos materiais. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a música de Gluck, e a voz de Juan Diego Flórez cantando “J`ai perdu mon Eurydice.


sábado, 23 de janeiro de 2010

Renascer



Renascer é voltar de novo e, no entanto, quando se regressa nada é como dantes. Alguma coisa mudou. E porque mudou, agora, os caminhos a percorrer têm outras etapas, com outras características, com outros objectivos. Tudo passa tão depressa que nem damos conta. Hoje uma coisa, amanhã outra e, pouco a pouco, vivemos num mundo diferente, de gente diferente, com ideias diferentes, porque renascer é inovar mesmo sem querer.

Esta tela marca o regresso à pintura. Foi longo o período de pausa. Por isto e por aquilo. Agora preciso de ter os mesmos desejos, a mesma força anímica e a mesma crença. Nestas coisas da arte é como no desporto – treinar, treinar, treinar para estar em forma. Aqui é preciso método, rigor e naturalmente alguma capacidade criativa. O futuro será o juiz e os fruidores os julgadores. Gosto de imaginar contextos paisagísticos e poses banais que, por serem banais, têm o encanto da verdade das coisas. História da Minha Pintura.

E vos deixo com um excerto do poema “A Espantosa Realidade das Cousas” de Alberto Caeiro ( heterónimo de Fernando Pessoa), in “Poemas Inconclusivos”:

“A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta…”

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Jazz




A música faz parte da nossa vida. É tão simples criar sons. Difícil é conjugar e harmonizar o que os diferentes instrumentos produzem. E porque é tão fácil os gostos musicais são o que são. Vale tudo. Barulho com fartura é o que basta nos dias de hoje. Tudo é “música”. Infelizmente (para o meu gosto).

Lá vai o tempo em que gostava de ouvir os sons do jazz. Era o bulício citadino tão presente; era a invenção do momento; era a harmonia da liberdade; era o espírito da mudança. Hoje é tudo tão diferente. Os meus gostos musicais são outros. Quando se descobre a beleza do canto operático tudo muda. E eu mudei. Felizmente. Esta tela (dos anos 80) é um mero exercício de procura. Os artistas fazem todos esboços pictóricos para preparar as grandes telas. Foi o caso. Aqui pinceladas soltas e cores saturadas fazem a história deste trabalho. História da Minha Pintura.

Françoise Sagan disse um dia, in “Um certo Sorriso”:

“- A música de jazz é uma inquietação acelerada.”

E vos deixo com o jazz e Louis Armstrong cantando What A Wonderful Word”.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As companhias



Somos seres gregários, vivemos em comunhão e estamos sempre em sociedade. E assim criamos laços de companhia, de afecto, de camaradagem. E tudo acontece desde os primeiros momentos. Desde crianças que formamos os grupos de interesse. E com o tempo seleccionamos e optamos por estes ou por aqueles amigos. E também pelos inimigos, porque isto das amizades acarreta o outro lado, o lado das invejas, dos conflitos, dos interesses opostos, ou não fossemos nós eternos conflituosos. E assim andamos com as boas ou as más companhias…

Esta tela é um retrato de pessoas que podem ser as amizades do momento, da circunstância ou da vontade própria. A simplicidade das posturas e o espaço livre buscam em termos plásticos criar uma imagem que traduza o modo de estar e ser num mundo gregário. A escala, a relação anatómica e o espaço procuram formar um todo harmonizado com o contraste das cores. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Sébastien-Roch Chamfort:

Neste mundo, existem três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam connosco, e os que nos odeiam.”

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sociedade de consumo




A vida é feita das pequenas coisas. Os grandes gestos são para a História dos Homens. A vida, a vida das pessoas, é aquilo que se faz no dia-a-dia. Pequenos actos, repetição das rotinas, banalidades constantes. É assim a vida das pessoas: amor aos seus e desejos. O resto é para os manuais dos bons costumes e das boas práticas. O que gostamos é de ter prazer nas coisas. Nas pequenas coisas. Com os nossos. Com os amigos do costume. Nos sítios do costume. Com as coisas do costume. Com os vícios do costume. Consumismo, pouco ou muito é como vivemos. Na sociedade de consumo.

Esta tela é mais uma das minhas muitas procuras. Nem sempre os trabalhos correspondem aos desejos. As ideias acabam por ficar aquém do expectável, como julgo ser (este) o caso. Aqui há elementos formais em demasia para configurar um objectivo que é pintar com sentido estético e, ao mesmo tempo, transmitir uma ideia: sociedade de consumo. História da Minha Pintura.

E recordo hoje as palavras de Voltaire:

“Nem sempre podemos agradar, mas podemos falar sempre agradavelmente.”

E vos deixo ( esta sim, uma obra conseguida que merece atenção e fruição ) com a música de Carl Orff e "Carmina Burana" que nos fala da deusa da Fortuna, da relação do Homem com a Natureza, do vinho, do amor e da glorificação da vida.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Algures




Vivemos tanto. Tantas lembranças, tantas coisas boas e más fazem parte deste nosso caminhar. Por aqui e mais por ali. E de tanto caminhar perdemos a precisão dos sítios, dos actos, das vivências. E algures se viveu este ou aquele episódio, neste ou naquele sítio. Algures.

Esta pintura em tela é um retrato tendo como fundo uma paisagem onde o lugarejo invade a serrania algures por aí. Como é usual, na minha pintura, procuro contextualizar ambientes e acções. Aqui o pretenso diálogo é predominante na temática pictórica. As poses e o lugar procuram clarificar a atmosfera entre as personagens. Cores, enquadramento e formas definem este trabalho que foi executado, como sempre, do mesmo modo: primeiro desenho; depois pinto sobrepondo as cores até encontrar os tons julgados correctos. História da Minha Pintura.

E vos deixo com o excerto do poema “Conversa Sentimental” de Paul Verlaine, in “Festas Galantes”:

“ No velho parque deserto e gelado
Duas formas passaram há bocado.

Com os olhos mortos e os lábios moles,
Mal se ouvem, a custo, as suas vozes.

No velho parque deserto e gelado
Dois espectros evocaram o passado.

-Recordas-te do nosso êxtase antigo?
- Porque razão acha que ainda consigo?

Bate ao ouvires meu nome o coração?
Vês ainda a minha alma em sonhos? – Não…”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A grande cidade



É na grande cidade que está tudo. Gente com fartura, rebuliço e coisas sem fim. É aqui, no meio da multidão, que se busca. Busca-se o sustento, a riqueza e o encontro dos desejos. É aqui que sentimos o espírito social e a solidão ou a comunhão dos afectos. Tudo acontece na grande cidade. Há de tudo para todos os gostos. O melhor e o pior. Como tudo na vida. Na grande cidade.

Esta tela, de grandes dimensões, é o retrato panorâmico de Lisboa que tem as cores, a arquitectura e a morfologia que tanto apaixona quem a visita. É o traçado urbanístico; é as gentes; é a História; é o rio, é tanta coisa; é Lisboa afinal. Procurei captar o que julgo corresponder ao olhar arquitectural da capital, sem gentes e no silêncio: a minha Lisboa. Para fazer este trabalho foi preciso utilizar fita métrica, régua, esquadro e fios para me indicarem a perspectiva. História da Minha Pintura.

E vos deixo com um extracto do poema “Lisboa” de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in “Poemas”:


Lisboa

“Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, isto é monótono…”