domingo, 17 de janeiro de 2010

Registos







Todos os dias registamos acontecimentos. Quase todos são meras repetições de actos banais e quotidianos, porém, de vez em quando, surge algo de diferente que quebra a monotonia do viver e dos dias. Ora são boas notícias, ora deixam-nos tristes e angustiados. E tudo porque a ordem das coisas se altera e, perto ou longe das situações, elas acabam por nos perturbar e nos envolver, ou não vivêssemos, cada vez mais, na aldeia global que a todos aproxima embora ninguém conheça ninguém. Infelizmente.

Estes desenhos foram feitos num ápice, e são meros registos nascidos da necessidade viciante de registar formas. Aqui optei pela figuração com a arbitrariedade das cores e do gesto expressivo. Como acontece muito ao comprar um bloco, não descanso enquanto não o termino, donde, muitos desenhos são apenas breves marcas de linhas que, pouco a pouco, vão formando um todo que pode ser o ponto de partida, para uma série porque, como na vida, procuro sempre, sempre e sempre.

E vos deixo com a poesia de Eugénio de Andrade e o excerto do poema “As Palavras Interditas”:


“…Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te.”

sábado, 16 de janeiro de 2010

Regressos





Regressamos tantas vezes. Fisicamente ou em pensamentos. Regressamos em busca de soluções, de memórias, de desejos. Regressamos. E ao regressar encontramos ou não o que buscamos. Os espaços mudam, as pessoas também e os desejos acompanham toda a mudança, mas regressamos sempre. Intencionalmente ou por mera associação de ideias ou actos. Regressamos para o melhor ou para o pior. É sempre assim quando se regressa.

Esta pintura em tela, datada do início da década, faz parte do período de viagens e contemplações que originaram a série “A Grande Viagem”, que é um passeio por este e outros países em busca da paz e da harmonia estética. Captar o envolvimento e cores foram a minha preocupação. Régua e esquadro com a utilização da perspectiva com dois pontos de fuga fazem a história construtiva deste trabalho. Quanto à luta é sempre igual. Construir e destruir formas e procurar harmonias cromáticas, pintando aqui e ali e depois mudando tudo, até se julgar que é o fim, porque não se consegue fazer melhor, ou porque se gosta mesmo. História da Minha Pintura.

E vos deixo com um excerto da poesia de David Mourão-Ferreira, in “A Secreta Viagem”:

“No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa…”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Imagens chocantes




Há imagens que nos chocam. É pelo contexto; é pela sensibilidade; é pela cultura; é pela religião; é pelo fundamentalismo; é pela desgraça. Há de tudo. Vivemos com a imagem e pela imagem. Nunca como hoje a imagem teve tanta importância. Ela constrói e destrói vidas. Ela conduz a actos de heroísmo e de desespero. Ela, a imagem, é, afinal, o nosso retrato presente ou ausente, um pouco por todo o lado, por todo o mundo e, em lado nenhum.

Esta tela, do chamado Período Açoreano que se caracteriza pela abundância de elementos formais, é o retrato dos contrastes e das muitas imagens que o mundo nos dá com as lutas e os desejos de uns e de outros. Esta pintura foi feita após realizar uma vasta série de colagens que, naturalmente, me conduziu a este emarenhado de formas e situações. Cores contrastantes completam este quadro de múltiplas leituras. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a poesia de Casimiro de Brito e “Quem Falou em Crime?”, in “Telegramas”:

“Crime quem falou em crime?
somos todos irmãos todos a mesma
carne incendiada

Quando houver um crime
o primeiro
todos seremos criminosos

Agora porém somos vivos e amamos
do nascimento à morte

Crime se o há já nos corria nas veias
quando éramos obscuros como o ventre
que nos concebeu

Não há veias que transbordem
neste corpo flexível
que nos eterniza.”

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A voragem



É mesmo assim. Tudo passa num instante. O herói de hoje é o esquecido de amanhã. É tudo uma voragem. Nada somos, nada valemos, ao contrário do que alguns pensam. Aclamados e reconhecidos depressa fazem parte da galeria dos esquecidos. Tanta agitação, tanta acção e basta tão pouco para que tudo caia no esquecimento. Tudo é breve. Até a vida. A nossa vida.


Esta aguarela é um retrato que, como todos os retratos, é uma visão parcial. A beleza do corpo, a postura, a juventude, o futuro está aqui nestas pinceladas. Procuro que a minha pintura seja mais que um mero olhar; quero que seja uma reflexão sobre a vida com as coisas boas e as menos agradáveis. As cores e as formas buscam captar o que os meus olhos vêem e a alma sente. Aqui a aguarela foi um desafio na arte do retrato. Primeiro o desenho do modelo com lápis fino amarelo (para não ser perceptível) e depois o jogo das cores, umas sobre as outras, para obter mais tonalidades. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a poesia de Alberto Caeiro ( heterónimo de Fernando Pessoa), in “Fragmentos”:

Nunca Busquei Viver a Minha Vida

“Nunca busquei viver a minha vida
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.”

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tempos loucos



Vivemos tempos loucos. Uns querem umas coisas, outros, o oposto. Há quem goste de contrariar as normas vigentes. Há quem não goste de mudar nada. E, porque a vida é assim, vivemos com certezas e dúvidas mil. Assistimos a tanto com admiração e repulsa. Olhamos e vemos maravilhas e, ao mesmo tempo, sabemos que também há o outro lado. O lado que não devia (segundo o nosso critério) de ter as normas, as condutas, as leis, a cultura, e o fundamentalismo. Mas tem. E porque tem a nossa angústia é muita. E é muita porque vivemos tempos loucos. E quem são os loucos?

Esta aguarela é uma assimilação de outros pintores. De vez em quando vou buscar elementos formais a outras obras de grandes génios da Arte e misturo tudo. Foi o que fiz aqui, neste trabalho. Tudo me serve para pintar. Umas vezes tenho o modelo perto de mim, outras, bem longe e, outras ainda, copio dos mestres. Eu sou assim. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Marcel Prust, in “À Procura do Tempo Perdido”:

“Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras”.

Quando ouvi, pela primeira vez, esta música, descobri que tinha encontrado um dos meus caminhos. Mozart é uma das minhas paixões. Das maiores. Aqui é a “Marcha Turca”, sonata para piano nº 11K. 331.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O pudor




Acontecem coisas. Coisas que ninguém viu, in loco, e, no entanto, provocam tanta celeuma. Basta uma fotografia para chocar, um simples vídeo ou um comentário. Tudo serve para mover as consciências, mais ou menos…conscientes. E assim assistimos a quem queira tirar partido do escândalo em proveito próprio, ou por desgraça alheia. É a moral do tempo que gera estes actos censórios que só valem pelo presente. E cá andamos entretidos com este ou aquele episódio, de gente, que não merece a atenção que tem e, os outros, vão fazendo as patifarias do costume, só porque acontecem coisas.

Esta aguarela é um retrato do pudor, ou da falta dele, no contexto certo ou errado, de acordo com as consciências. O nu, desde sempre, ocupou um espaço na Arte Ocidental. Umas vezes mais evidente e, outras, por questões religiosas, muito dissimuladas. Coisas da moral e dos bons (maus) costumes. Neste meu trabalho, procurei, representar uma pose que é, hoje, tão banal na figuração artística. Cores quentes num contexto aberto buscam criar uma conflitualidade expositiva. História da Minha Pintura.

E vos deixo com o excerto do poema “A Mulher Nua” de Juan Ramón Jiménez:

“ Humana fonte bela,
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?
…”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Divagar





"Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento

Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...

Fernanda de Castro, in "Antemanhã"


E vos deixo com a música de Litz na rapsódia húngara nº2 em dó sustenido menor S244.