quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A catarse




Todos os dias, mas mesmo todos os dias, eu preciso de arte. Arte significa ouvir "a minha" música, ou escrever umas palavras breves, ou vendo uma obra de arte, ou, no melhor dos casos, participar na realização de um projecto artístico. É uma necessidade tão grande quanto as outras que são comuns a todos. É a minha catarse. É a necessidade que eu tenho de dar significado à própria existência. Não imagino viver onde não se pode ouvir música, nem criar formas livremente, nem ler o que nos apetece. E quando pelos caminhos da vida o acesso à cultura e ao fruir da obra de arte não se faz, então não encontro alegria. Este sou eu.

Esta pintura é uma nítida influência do Almada Negreiros que numa belíssima tela abraça a mulher. Aqui é um pai que abraça o seu filho, num acto de ternura e de amor que, como todos sabemos, é das coisas boas da vida. Mais uma vez o exagero formal, com o intuito de realçar a própria mensagem, aqui num intrincado jogo de cores inquietantes. História da Minha Pintura.


Hoje recordo as palavras de Johann Goethe, in "Eufrosina":

"Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a vida recusa ao homem."

"
E vos deixo com a maravilha da música de Rimsky- Korsakoff em "Canão da Arábia".


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os velhos




Nada podemos fazer. É a lei da vida. A lei da natureza. Um dia nascemos e outro morremos. Tudo passa. Uns andam por cá anos a fio. Outros é por instantes. E, porque tudo acaba mais cedo ou mais tarde, vamos vivendo ora jovens, ora velhos. E os velhos são a última etapa deste percurso com mais ou menos significado; com mais ou menos ressonância; com mais ou menos impacto entre os pares. É a vida. A nossa vida.

Esta tela é o retrato dos que anos a fio viveram olhando o mundo e tirando ou não proveito dele. Esta pintura inserida na temática dos interiores, cheio de elementos, procura captar os ambientes peculiares com as cores, a luz e as formas da minha paleta. Esta série é caracterizada pelo desejo de “encher” o espaço com muitas formas e cores, e agora, tão distante dos meus desejos presentes. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de La Rochefoucauld, in “Máximas”:

“Os velhos gostam de dar bons exemplos para se consolarem de já não estarem em estado de dar maus exemplos”.

E vos deixo com o tango que encantou gerações e gerações.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Palavras



Há dias. Há dias em que tudo, mas mesmo tudo, está no sítio errado. E quando assim acontece nada de bom surge. As palavras certas não aparecem. As frases são desconexas. O mundo está todo virado ao contrário. Há dias assim. Queremos dizer coisas. Coisas que julgamos importantes mas, tudo é um enorme vazio. As palavras nada dizem. Há dias assim.

Esta pintura retrata mais um cantinho, onde a intimidade mais profunda ocupa o seu lugar. Procurei pintar um ambiente em que a luz e as cores fossem a expressão dos sentimentos dos espaços íntimos. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de François La Rochefoucauld, in “Máximas”:

“Por vezes, somos tão diferentes de nós mesmos como dos outros.”

E vos deixo com a música de António Pinho Vargas e “As Mãos”.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Animais de estimação





Precisamos todos, todos mesmo, de companhia para vencer a solidão e o silêncio do vazio. Precisamos de sentir, ao pé de nós, um pulsar. E quando nos falta o calor humano recorremos aos animais. Cães e gatos são hoje uma presença constante nos muitos lares vazios de gente. E são eles, quantas vezes, os nossos únicos companheiros. Coisas dos tempos. Tempos dos afectos trocados.


Estes desenhos são apontamentos espontâneos dos animais que preenchem os cantinhos das nossas casas. Aqui, como sempre, procuro registar com linhas múltiplas o recorte formal da configuração do que pretendo desenhar. Não uso borracha e quando o traço não passa pelo local certo a solução é simples: risco de novo. Os meus desenhos são um conjunto de linhas "certas" e linhas "erradas". Linhas que originam desenhos e estes podem ser o embrião de pinturas, já que tudo o que pinto é iniciado com desenhos, uns mais, outros menos elaborados, mas, mas mesmo todos, nascidos de emoções ou desejos de retratar a realidade. História da Minha Pintura.


E recordo Paolo Mantegazza que escreveu:

"Os afectos podem às vezes somar-se; subtrair-se, nunca."

E vos deixo hoje com a 7 ª sinfonia de Beethoven que tem a vitalidade, a energia e a paixão que tanto nos falta hoje, neste mundo cheio de vencidos da vida.




domingo, 29 de novembro de 2009

A taberna





Era ali. Ali, mesmo ao lado da minha casa. Era a taberna. A taberna onde via entrar os que queriam esquecer as agruras da vida. Era ali que via, extasiado, jogarem aos matraquilhos. Era o Benfica contra o Sporting. Que maravilha. E assim foi a minha segunda infância, vendo, vendo as fraquezas dos homens. E, porque assim foi, o meu estúdio tem uma mesa de matraquilhos que é, afinal, a alegoria do regresso ao passado. E foram as cores, as formas dos bonecos, os cheiros, as vozes e tudo aquilo que me fascinou que, ainda hoje, coloco nas minhas obras. História da Minha Pintura.


Recordo hoje as palavras de Thomas Carlyle:

"O homem nasceu para lutar e a sua vida é uma eterna batalha."




E vos deixo com a música de Brahms e a genialidade de Maxim Vengerov em Dança Húngara nº 5.



sábado, 28 de novembro de 2009

A casa da tia-avó




"...Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem..."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" Heterónimo de Fernando Pessoa

Não me lembro da única avó que me conheceu. Tenho as fotografias que atestam a comunhão entre mim e a mãe do meu pai. Apenas isso. E só isso. E é este nosso modo existencial, em que o melhor de nós não passa para as gerações futuras, que nos demonstra, mais uma vez, a nossa menoridade, comparativamente à grandeza da vida e dos deuses, sejam eles o que forem. E, como desenhador compulsivo, registei os ambientes, as pessoas, o contexto, os modos de estar e ser dos meus tios-avós que, felizmente, conheci. Os desenhos comprovam essas vivências. Aqui, o mobiliário é um certificado do posicionamento social que a minha pena captou em tempos longínquos. Era maravilhoso, todos os dias, surgia com o meu caderno e desenhava, desenhava e eles adoravam. Viam nascer as formas, os rostos, as parecenças e eu feliz ficava. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música que vinda da Áustria e criada por Johan Strauss encantou o mundo:"Valsa de Viena".


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dois mundos






Há dois mundos: há o mundo real e o mundo da fantasia. O primeiro é o nosso dia-a-dia; o segundo é a fuga que encontramos para fugir do dia-a-dia. O real é o desejo de construir e ter esperança. A fantasia é o viver nos sonhos do inconsciente enquanto dormimos, ou, conscientemente sonhamos com o maravilhoso e o fantástico. E é este nosso andar que nos leva por caminhos de encontros e desencontros. Sempre e sempre.

Este meu trabalho, que esteve patente numa galeria de Lisboa, surgiu de um convite muitos tempo antes da exposição que invadiu a nossa capital. Aqui, utilizei os meus brinquedos de madeira, como inspiração, para fantasiar a minha atitude perante a arte e a vida.

Hoje recordo Fernando Pessoa:

“O mundo não é verdadeiro, mas é real.”

E vos deixo com a mestria, ao violino, de Vengerov, sob a batuta de Kurt Mazur ( o maestro que mais aprecio) e a música de Dvorak.