segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Animais de estimação





Precisamos todos, todos mesmo, de companhia para vencer a solidão e o silêncio do vazio. Precisamos de sentir, ao pé de nós, um pulsar. E quando nos falta o calor humano recorremos aos animais. Cães e gatos são hoje uma presença constante nos muitos lares vazios de gente. E são eles, quantas vezes, os nossos únicos companheiros. Coisas dos tempos. Tempos dos afectos trocados.


Estes desenhos são apontamentos espontâneos dos animais que preenchem os cantinhos das nossas casas. Aqui, como sempre, procuro registar com linhas múltiplas o recorte formal da configuração do que pretendo desenhar. Não uso borracha e quando o traço não passa pelo local certo a solução é simples: risco de novo. Os meus desenhos são um conjunto de linhas "certas" e linhas "erradas". Linhas que originam desenhos e estes podem ser o embrião de pinturas, já que tudo o que pinto é iniciado com desenhos, uns mais, outros menos elaborados, mas, mas mesmo todos, nascidos de emoções ou desejos de retratar a realidade. História da Minha Pintura.


E recordo Paolo Mantegazza que escreveu:

"Os afectos podem às vezes somar-se; subtrair-se, nunca."

E vos deixo hoje com a 7 ª sinfonia de Beethoven que tem a vitalidade, a energia e a paixão que tanto nos falta hoje, neste mundo cheio de vencidos da vida.




domingo, 29 de novembro de 2009

A taberna





Era ali. Ali, mesmo ao lado da minha casa. Era a taberna. A taberna onde via entrar os que queriam esquecer as agruras da vida. Era ali que via, extasiado, jogarem aos matraquilhos. Era o Benfica contra o Sporting. Que maravilha. E assim foi a minha segunda infância, vendo, vendo as fraquezas dos homens. E, porque assim foi, o meu estúdio tem uma mesa de matraquilhos que é, afinal, a alegoria do regresso ao passado. E foram as cores, as formas dos bonecos, os cheiros, as vozes e tudo aquilo que me fascinou que, ainda hoje, coloco nas minhas obras. História da Minha Pintura.


Recordo hoje as palavras de Thomas Carlyle:

"O homem nasceu para lutar e a sua vida é uma eterna batalha."




E vos deixo com a música de Brahms e a genialidade de Maxim Vengerov em Dança Húngara nº 5.



sábado, 28 de novembro de 2009

A casa da tia-avó




"...Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem..."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" Heterónimo de Fernando Pessoa

Não me lembro da única avó que me conheceu. Tenho as fotografias que atestam a comunhão entre mim e a mãe do meu pai. Apenas isso. E só isso. E é este nosso modo existencial, em que o melhor de nós não passa para as gerações futuras, que nos demonstra, mais uma vez, a nossa menoridade, comparativamente à grandeza da vida e dos deuses, sejam eles o que forem. E, como desenhador compulsivo, registei os ambientes, as pessoas, o contexto, os modos de estar e ser dos meus tios-avós que, felizmente, conheci. Os desenhos comprovam essas vivências. Aqui, o mobiliário é um certificado do posicionamento social que a minha pena captou em tempos longínquos. Era maravilhoso, todos os dias, surgia com o meu caderno e desenhava, desenhava e eles adoravam. Viam nascer as formas, os rostos, as parecenças e eu feliz ficava. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a música que vinda da Áustria e criada por Johan Strauss encantou o mundo:"Valsa de Viena".


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dois mundos






Há dois mundos: há o mundo real e o mundo da fantasia. O primeiro é o nosso dia-a-dia; o segundo é a fuga que encontramos para fugir do dia-a-dia. O real é o desejo de construir e ter esperança. A fantasia é o viver nos sonhos do inconsciente enquanto dormimos, ou, conscientemente sonhamos com o maravilhoso e o fantástico. E é este nosso andar que nos leva por caminhos de encontros e desencontros. Sempre e sempre.

Este meu trabalho, que esteve patente numa galeria de Lisboa, surgiu de um convite muitos tempo antes da exposição que invadiu a nossa capital. Aqui, utilizei os meus brinquedos de madeira, como inspiração, para fantasiar a minha atitude perante a arte e a vida.

Hoje recordo Fernando Pessoa:

“O mundo não é verdadeiro, mas é real.”

E vos deixo com a mestria, ao violino, de Vengerov, sob a batuta de Kurt Mazur ( o maestro que mais aprecio) e a música de Dvorak.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Nem sempre sou igual



Nem Sempre sou Igual no que Digo e Escrevo

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cores da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXIX”
Heterónimo de Fernando Pessoa.

Esta pintura, em tela, é parte de um biombo, de grandes dimensões. A ideia deste trabalho nasceu de uma proposta e que se traduziu na feitura de cinco biombos. Primeiro coloquei as telas no chão e construí com fios, alfinetes , régua e esquadro a “arquitectura” da pintura. Depois do desenho feito passo para a pintura propriamente dita, ou seja, tintas e pincéis num jogo de construções e destruições. E começa então a “guerra” com alegrias e muitas desilusões. História da Minha Pintura.


E vos deixo com a voz perturbadora de Maria Callas em Casta Diva da ópera a Norma de Bellini.



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O testamento


O Testamento dos Namorados

Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.
Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.
Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.
Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"


Esta pintura em tela, de grande formato, fez parte da série de biombos que realizei em 96 e que agora apresento por fragmentos. Mais uma vez, o jogo dos simultâneos, o interior e exterior formam uma temática de relacionamento humano. Neste período utilizava umas tintas que me fascinavam pelo cromatismo saturado e procurava que as formas fossem simples mas precisas esteticamente. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a Traviat de Verdi que, como se sabe, encantou a Itália e continua a fascinar pela música e pelas histórias trágicas que o amor tece.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

A nossa imagem





É o nosso tempo. É o nosso modo de estar e pensar. É o nosso desejo de fazermos parte da plebe sem constrangimentos. E porque é o nosso tempo construímos a nossa imagem à semelhança das atitudes e valores sociais contemporâneos. E assim vamos edificando a nossa imagem de acordo com o que nos cerca. Para o melhor e para o pior. Como sempre.

Estes dois desenhos fazem parte de um fragmentado trabalho onde procurei criar uma imagem de mim. Com o auxílio do espelho e com papéis de formato A4 e um lápis de mina dura, a representação das formas do rosto nascem da observação contínua, ou seja, observo-risco, observo-risco. Para que as proporções e a semelhança sejam correctas é preciso trabalhar muito com a construção do próprio desenho, que é, como toda a criação artística, um jogo de construções e destruições. Como sempre não utilizo borracha, daí os desenhos com muitas linhas.

Hoje recordo as palavras de um texto cristão extraídos de "São Gregório de Nazianzo.":

"Uma parte de mim já se foi, sou outro neste instante e outro serei se continuo a existir."