sábado, 14 de novembro de 2009

As nossas coisas




As nossas coisas valem muito e nada valem. Valem pelo significado. Pelas memórias. Pela importância que cada um lhes dá. E nada valem em contextos diferentes. Nada dizem a tantos outros e, no entanto, são, quantas vezes, os nossos tesouros, aqueles que verdadeiramente nos agarram e nos dão momentos de alegria e de felicidade. As nossas coisas.

Esta tela de longa data, do período “boteriano”, procura ser um retrato de uma das muitas casas que enchemos com as nossas coisas que, valem o que valem. Cores fortes e complementares num desenho excessivo nas formas, fazem parte deste meu testemunho intimista. História da Minha Pintura.

E vos deixo com a poesia de António José Queirós:

Saudade

“ Há um mistério escondido no teu nome,
nesse nome fecundo e magoado
que convoca a incurável lembrança
gangrenada pela ausência de quem parte.

Numa íntima e infinita melancolia,
que às vezes se prolonga até às lágrimas,
a noite amanhece sofrida e impaciente
À espera que o tempo se cumpra na memória.

Da ruína que fica resta o silêncio,
A liturgia torturada e muda do remorso.”

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Casas vazias



Andamos de um lado para o outro em busca de uma vida melhor. E ao mudar os trapos e as loiças levamos um pouco de nós e mudamos também. Novos hábitos, novas rotinas, novas situações exigem posturas e desafios diferentes. E eternamente andamos de um lado para o outro. Umas vezes acertamos, outras, nem por isso. É o preço da aventura que pagamos com as mudanças de cá para lá, e de lá para cá. É assim. É assim mesmo.


Esta pintura em tela é um espaço que está vazio, talvez pelas mudanças que nos levam para todo o lado, e, para lado nenhum. Aqui, nesta série, utilizava a perspectiva bem marcada e, também, como sempre, procurei construir um espaço onde a cor fosse um espelho do ambiente. História da Minha Pintura.


Hoje recordo um excerto do poema "Casa Abandonada" de Francisco Bugalho, in "Margens":

" Minha saudade não larga
Certa casa abandonada.
E sinto, na boca, amarga,
Essa lágrima chorada
Quando a deixei..."

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Conversas silenciosas



É mesmo assim. Não é preciso falar muito. Longos silêncios dizem tudo. É como vivemos, tantas vezes. Conversamos sem dizer nada. Dizemos tanto, nada dizendo.

Esta tela procurou ser o retrato dos diálogos silenciosos que tanto dizem, nada dizendo ou, dizendo tudo, sem nada dizerem. Nesta tela procurei captar um espaço interior onde cada forma, cada objecto, fosse importante no minimalismo da composição. História da Minha Pintura.

E trago hoje as palavras de Paul Claudel:

"As grandes verdades só se comunicam através do silêncio."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Retratar



Olhamos e julgamos, os outros, continuamente. Fazemos juízos sobre quem nos cerca. Conhecidos ou não. E julgamos muito pela aparência. Pelo olhar. Pelo rosto. E criticamos bem e mal. Uns pela pose, pelo trajar, pelo contexto merecem uma apreciação. Outros, porque estão longe dos nossos interesses, são quase invisíveis, mesmo ali ao pé de nós. E é assim que elogiamos ou destronamos os outros, segundo os retratos que fazemos, olhando. E olhamos todos os dias...

Esta pintura em tela é mais um dos meus retratos que, como todos os outros, buscam a semelhança com o modelo e a sua análise psicológica. O olhar escondido é uma forma que mais procuro quando faço o retrato de alguém. É, nos olhares "perdidos" que está muito de nós e que eu procuro sempre. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

"Um retrato pintado com a alma é um retrato, não do modelo mas do artista."

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O silêncio



Casas cheias e silêncios profundos são espaços onde mora a inquietação e a angústia. São as nossas casas. Cheias de tudo. Cheias de bens materiais e tão parcas em afectos. Algumas delas até são palácios. Palácios vazios. Vazios de gente. De gente com alma. De gente com vontade de viver alegremente. De viver com a alegria dos prazeres mundanos e o aconchego dos laços. Mas, mas hoje as casas cheias são bem diferentes. Diferentes. Diferentes em tudo. É o nosso tempo. É a nossa sina.


Esta pintura em tela é o retrato de um espaço cheio mas, onde falta gente, neste mundo de tanta solidão. É mais um recanto onde a luz invade a intimidade de uma casa. Aqui cores e formas procuram acentuar o espaço. História da Minha Pintura.


E vos deixo, hoje, com as palavras de Camilo Castelo Branco:

"O silêncio é uma confissão."

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A rua



Há ruas e ruas. Umas são encantadoras e têm tudo: casas, lojas, gente e muita animação. Outras, pelo contrário, são o oposto: sem gente, nem encanto. Assim é a nossa paisagem urbanística: com vida citadina ou sem ela. As ruas, como sabemos, têm mais encanto quando estão vivas. E vivas significa gente, movimento, luz, e, quanto tudo isto acontece, têm, naturalmente, mais encanto. Infelizmente as nossas ruas vão perdendo vida por mais belas que sejam. São os novos tempos. Os novos tempos.

Esta pintura sobre tela retrata uma rua que, como todas as ruas das nossas cidades, têm nas lojas pólos de encanto. Para fazer este trabalho houve um cuidado na construção da estrutura intrínseca da composição e, uma escolha das cores, acentuando os vários planos para sugerir profundidade. História da Minha Pintura.

Recordo hoje, um excerto, do poema "Gato que brincas na rua" de Fernando Pessoa:

"Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua,
Porque nem sorte se chama..."


E vos deixo com a música de Stravinsky que ilustra, para mim, a musicalidade do bulício da rua.



domingo, 8 de novembro de 2009

Viajar e descobrir



Viajar é percorrer espaços, conhecidos ou não, que nos transportam para outros locais. E, ao chegar, descobrimos novas vistas ou apenas olhamos, mais uma vez, sem nada ver. Se olhamos com olhos de ver, descobrimos as diferenças entre nós e os outros; entre a nossa paisagem de todos os dias e a que os nossos olhos descobrem contemplando a beleza ou a falta dela. É sempre assim. Viajamos e comparamos. Viajamos e vamos ficando diferentes. Viajamos e vamos conhecendo o mundo e descobrindo que afinal nada somos , nem nada sabemos, mesmo acreditando que somos tudo e sabemos tudo. Viajemos pois.


Esta tela é, mais uma vez, uma pequena viagem onde a contemplação do espaço e das suas gentes nos marcam e nos definem como pessoas. Como pintor procurei, dentro do meu modo de ser e olhar o mundo, captar a ambiência e a maneira de viver e sentir. Utilizei as cores da minha usual paleta, com a luz e a atmosfera que me é peculiar e num intricado jogo de linhas e construções geométricas, defini este espaço onde o silêncio nada diz, dizendo tudo. História da Minha Pintura.


Hoje trago as palavras de Maeterlinck:

"A palavra é tempo, o silêncio é eternidade."


E vos deixo com a música de Grieg e aqui com Arthur Rubinstein e "Piano Concerto 1 st mov (1)".