segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A rua



Há ruas e ruas. Umas são encantadoras e têm tudo: casas, lojas, gente e muita animação. Outras, pelo contrário, são o oposto: sem gente, nem encanto. Assim é a nossa paisagem urbanística: com vida citadina ou sem ela. As ruas, como sabemos, têm mais encanto quando estão vivas. E vivas significa gente, movimento, luz, e, quanto tudo isto acontece, têm, naturalmente, mais encanto. Infelizmente as nossas ruas vão perdendo vida por mais belas que sejam. São os novos tempos. Os novos tempos.

Esta pintura sobre tela retrata uma rua que, como todas as ruas das nossas cidades, têm nas lojas pólos de encanto. Para fazer este trabalho houve um cuidado na construção da estrutura intrínseca da composição e, uma escolha das cores, acentuando os vários planos para sugerir profundidade. História da Minha Pintura.

Recordo hoje, um excerto, do poema "Gato que brincas na rua" de Fernando Pessoa:

"Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua,
Porque nem sorte se chama..."


E vos deixo com a música de Stravinsky que ilustra, para mim, a musicalidade do bulício da rua.



domingo, 8 de novembro de 2009

Viajar e descobrir



Viajar é percorrer espaços, conhecidos ou não, que nos transportam para outros locais. E, ao chegar, descobrimos novas vistas ou apenas olhamos, mais uma vez, sem nada ver. Se olhamos com olhos de ver, descobrimos as diferenças entre nós e os outros; entre a nossa paisagem de todos os dias e a que os nossos olhos descobrem contemplando a beleza ou a falta dela. É sempre assim. Viajamos e comparamos. Viajamos e vamos ficando diferentes. Viajamos e vamos conhecendo o mundo e descobrindo que afinal nada somos , nem nada sabemos, mesmo acreditando que somos tudo e sabemos tudo. Viajemos pois.


Esta tela é, mais uma vez, uma pequena viagem onde a contemplação do espaço e das suas gentes nos marcam e nos definem como pessoas. Como pintor procurei, dentro do meu modo de ser e olhar o mundo, captar a ambiência e a maneira de viver e sentir. Utilizei as cores da minha usual paleta, com a luz e a atmosfera que me é peculiar e num intricado jogo de linhas e construções geométricas, defini este espaço onde o silêncio nada diz, dizendo tudo. História da Minha Pintura.


Hoje trago as palavras de Maeterlinck:

"A palavra é tempo, o silêncio é eternidade."


E vos deixo com a música de Grieg e aqui com Arthur Rubinstein e "Piano Concerto 1 st mov (1)".



sábado, 7 de novembro de 2009

Vergonha




Há os que têm vergonha. Vergonha dos actos; do passado; de si; do corpo; vergonha de não saber; de não ser capaz; da exposição de si próprio; de tudo e de nada. Vergonha. Simplesmente vergonha. E há os outros: os que gostam de se expor a este mundo e ao outro. Expõem a si e aos seus. Expõem-se sabendo que não têm vergonha de mentir, de roubar, de criminalizar, disto e daquilo. E é assim que vivemos. Uns cientes de valores éticos. Outros querendo tudo, logo sem valores nenhuns. É a nossa gente. Com e sem vergonha.


Esta aguarela é um dos muitos retratos que me encantam (modéstia à parte) porque trazem em si o que há de mais belo e puro na postura de quem tem ainda princípios e valores. É a timidez que aqui tem a expressão mais ampla. Este retrato só foi feito depois de obter o papel ideal para aguarela e conseguir tirar partido da mistura das cores e das transparências, só possíveis nas pinceladas únicas da aguarela. Histórias da Minha Pintura.


Hoje trago as palavras de Vergílio Ferreira em "Conta-Corrente 5":

"Ser tímido é dar importância aos outros. Ser desinibido é dá-la a si próprio. Mas normalmente o tímido tem-na. O desinibido não."

E vos deixo com a música de quem fez da timidez um modo de estar na vida: Schumann, aqui, com a mestria, ao piano, de Argerich .

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O nosso espaço




O espaço, o nosso espaço, é o nosso território. E, como sempre, é nele que nos sentimos seguros, ou seja, reis deste mundo e do outro; senhores de tudo; senhores na aparência e no fingimento, mas sempre senhores. Somos assim, reconhecendo ou não a verdade. E é no nosso ambiente, peculiar, que construimos o melhor e o pior. Bem ou mal por cá andamos. Ora reconhecidos, ora ignorados e, quase todos, infelizmente, seres infinitamente transparentes, mesmo no nosso espaço.


O ateliê é o espaço do pintor: tem luz, muita tralha e sempre caótico. É assim quando se trabalha com tintas e pincéis. Com silêncio ou sem ele. Esta tela retrata um espaço desses mas, arrumado, o que significa que o pintor não pinta. Linhas e cores cinzas definem este ambiente geometrizado e profundamente orientado pela cultura renascentista, onde a simetria disfarçada é uma das características. Histórias da Minha Pintura.


Hoje trago as palvras de Eurípides, in "Fragmento":

"Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio."

E vos deixo com a música de Rossini :"La Gazza Ladra", aqui sob orientação de Claúdio Abbado em 1991, em Viena de Aústria.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A cama




Todos os dias nos deitamos em lençóis de lã, de flanela, de seda ou ao relento. Dormimos nos mais belos aposentos ou à chuva, ou ao vento, ou não dormimos. E assim vivemos dormindo bem uns dias e mal outros. Bem ou mal nos deitamos e saboreamos o descanço e com ele os sonhos, as fantasias e as angústias. E é, mais ou menos deitados, que as noites nos consomem e transportam para mundos e fundos. Todos os dias.

Esta pintura, em tela, é o retrato de um espaço que tem os mimos próprios de uma cultura, de um desenvolvimento social que identifica o nosso modo de estar e viver. Procurei criar um ambiente onde as cores fossem a expressão de um espaço íntimo e pacato com objectos condutores de leituras díspares. Histórias da Minha Pintura.


Hoje recordo Eugénio de Andrade:

"Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitos. E são feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas."


E vos deixo, mais uma vez, porque adoro, com a música de Bach:"Air aus der Suite Nr. 3 e a mestria ao violino da Anne-Sophie Mutter.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A praça




Cada cidade, cada lugarejo tem a sua praça, o seu coração. O local de encontro comunitário é, por excelência, onde se vai e se sente o sentir das suas gentes, a sua História, o seu viver. A soma das histórias vividas, dos episódios, das recordações criam, nos espaços comuns, hábitos de estar e viver publicamente. Com mais ou menos intriga. Com mais ou menos gente. E assim é a vida das nossas praças. Das nossas gentes.


Esta pintura retrata um espaço que, como todos os espaços abertos, tem características próprias, com o ambiente definidor das posturas e da arquitectura. Este trabalho começou por ser desenhado com a utilização da perspectiva com dois pontos de fuga, e, só depois, apliquei as tintas numa malha traçada a régua e esquadro. As cores através das suas diferentes tonalidades procuram, também, sugerir a profundidade. História da Minha Pintura.


Recordo hoje um excerto do poema "A Praça" de Álvaro de Campos ( heterónimo de Fernando Pessoa):

"...Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui...Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante..."



E vos deixo com a música de Glen Miller e "Moonlight Serenade".


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Intimidade




Há as normas. Há os usos e costumes. Há a crítica social. Há a inveja. Há a ignorância. Há tudo para cumprir e obedecer. E há o nosso espaço. O espaço em que vivemos longe das opiniões e observações dos outros. Longe e tão perto de tudo e de todos. E é aqui que viajamos, entre quatro paredes, na nossa intimidade. Usamos ou não este traje; temos ou não esta postura; dizemos ou não estas palavras; fazemos isto e não aquilo; somos ou não somos isto e aquilo. E assim vivemos com mais ou menos intimidade. Entre quatro paredes.


Esta pintura em tela retrata um espaço que, como todos os espaços, cheios ou vazios, é um local onde expomos a nossa intimidade que é, sempre, a expressão do nosso modo de ser, com mais ou menos beleza, com mais ou menos verdade. Aqui, utilizei a perspectiva com um ponto de fuga e, procurei conjugar cores que não fazem parte dominante da minha paleta, mas que tento usar para fugir à dependência dos azuis que, de facto, predominam nas minhas obras. História da Minha Pintura.


Hoje recordo as palavras de Alain:


"Ninguém no mundo tem poder sobre o seu juízo interior; embora possam obrigar-nos a dizer em pleno dia que é noite, não há força capaz de nos coagir a pensá-lo."

E vos deixo com "Clopin-Clopant", aqui com a voz de Josephine Baker que chocou o mundo da época com posturas e modos de estar que estão hoje "normalizados".