quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A cama




Todos os dias nos deitamos em lençóis de lã, de flanela, de seda ou ao relento. Dormimos nos mais belos aposentos ou à chuva, ou ao vento, ou não dormimos. E assim vivemos dormindo bem uns dias e mal outros. Bem ou mal nos deitamos e saboreamos o descanço e com ele os sonhos, as fantasias e as angústias. E é, mais ou menos deitados, que as noites nos consomem e transportam para mundos e fundos. Todos os dias.

Esta pintura, em tela, é o retrato de um espaço que tem os mimos próprios de uma cultura, de um desenvolvimento social que identifica o nosso modo de estar e viver. Procurei criar um ambiente onde as cores fossem a expressão de um espaço íntimo e pacato com objectos condutores de leituras díspares. Histórias da Minha Pintura.


Hoje recordo Eugénio de Andrade:

"Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitos. E são feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas."


E vos deixo, mais uma vez, porque adoro, com a música de Bach:"Air aus der Suite Nr. 3 e a mestria ao violino da Anne-Sophie Mutter.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A praça




Cada cidade, cada lugarejo tem a sua praça, o seu coração. O local de encontro comunitário é, por excelência, onde se vai e se sente o sentir das suas gentes, a sua História, o seu viver. A soma das histórias vividas, dos episódios, das recordações criam, nos espaços comuns, hábitos de estar e viver publicamente. Com mais ou menos intriga. Com mais ou menos gente. E assim é a vida das nossas praças. Das nossas gentes.


Esta pintura retrata um espaço que, como todos os espaços abertos, tem características próprias, com o ambiente definidor das posturas e da arquitectura. Este trabalho começou por ser desenhado com a utilização da perspectiva com dois pontos de fuga, e, só depois, apliquei as tintas numa malha traçada a régua e esquadro. As cores através das suas diferentes tonalidades procuram, também, sugerir a profundidade. História da Minha Pintura.


Recordo hoje um excerto do poema "A Praça" de Álvaro de Campos ( heterónimo de Fernando Pessoa):

"...Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui...Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante..."



E vos deixo com a música de Glen Miller e "Moonlight Serenade".


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Intimidade




Há as normas. Há os usos e costumes. Há a crítica social. Há a inveja. Há a ignorância. Há tudo para cumprir e obedecer. E há o nosso espaço. O espaço em que vivemos longe das opiniões e observações dos outros. Longe e tão perto de tudo e de todos. E é aqui que viajamos, entre quatro paredes, na nossa intimidade. Usamos ou não este traje; temos ou não esta postura; dizemos ou não estas palavras; fazemos isto e não aquilo; somos ou não somos isto e aquilo. E assim vivemos com mais ou menos intimidade. Entre quatro paredes.


Esta pintura em tela retrata um espaço que, como todos os espaços, cheios ou vazios, é um local onde expomos a nossa intimidade que é, sempre, a expressão do nosso modo de ser, com mais ou menos beleza, com mais ou menos verdade. Aqui, utilizei a perspectiva com um ponto de fuga e, procurei conjugar cores que não fazem parte dominante da minha paleta, mas que tento usar para fugir à dependência dos azuis que, de facto, predominam nas minhas obras. História da Minha Pintura.


Hoje recordo as palavras de Alain:


"Ninguém no mundo tem poder sobre o seu juízo interior; embora possam obrigar-nos a dizer em pleno dia que é noite, não há força capaz de nos coagir a pensá-lo."

E vos deixo com "Clopin-Clopant", aqui com a voz de Josephine Baker que chocou o mundo da época com posturas e modos de estar que estão hoje "normalizados".


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Exotismo




O desconhecido; o desejo de procurar novos mundos; novos modos de ser e estar; novas culturas levam-nos a partir, a procurar aventuras; a procurar o que julgamos precisar; a procurar, simplesmente, sabe-se lá o quê. E por tanto procurar encontramos outras gentes que, pela diferença, nos atraem. É o ambiente, é a cor, é o cheiro, é a postura, é a forma de viver, é quase tudo que nos apaixona ou nos afasta. E, porque o nosso mundo é tão diferente e tão próximo, vivemos nesta luta de buscas por causas, ora em sintonia, ora combatendo-as. E assim vivemos com mais ou menos exotismo. Com mais ou menos diferenças. Insatisfeitos sempre. E sempre em busca de mais exotismo.



Esta aguarela é uma miragem sobre a fantasia do olhar o mundo e captar apenas o que há de belo e exótico. Tecnicamente procurei, a partir do desenho, criar um ambiente que, aliado a cores saturadas e na gama dos tons ocres, exprimissem o exotismo. Mais uma vez, utilizei a aguarela para obter transparências. História da Minha Pintura.


Recordo hoje, de novo, as palavras de Camilo Castelo Branco:

"A civilização é a razão da igualdade."


E vos deixo com a "Marcha turca" de Mozart.



domingo, 1 de novembro de 2009

Árvore das patacas




É o desejo de todos: viver bem. E viver bem significa ter saúde, paz e amor. E tudo isto à sombra da árvore das patacas. É a fantasia do nosso viver: tudo belo e floreado até ao juízo final. E, com muito ou pouco juízo, por cá andamos, felizes ou tristes, em busca da árvore das patacas que nos conduza à abundância dos bens materiais que, dos outros, não há árvore milagrosa que nos satisfaça.

Esta aguarela é um dos muitos momentos vivenciais que gosto de registar no meu trabalho pictórico. As cores, a minúcia dos pormenores e o enquadramento procuram formar, nesta obra, uma imagem que corresponda ao típico ambiente do desejo e da fantasia. História da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Oscar Wilde:

“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.”

E vos deixo com a música de Tchaikovsky que tem tudo de suave, romântico e belo, tão distante das novas sonoridades.



sábado, 31 de outubro de 2009

Contos de fadas




Há o mundo real. O nosso mundo. O mundo das rotinas; das guerras; das golpadas; das intrigas; do faz de conta; dos dias felizes; dos tristes dias; disto e daquilo. Há, também, o mundo da fantasia e da fuga, ou seja, o mundo da imaginação e do sonho: mundo dos castelos com os príncipes e princesas eternamente felizes e belos; dos jardins floridos, dos amores infinitos. Enfim, contos de fadas para esquecer o mundo real. O nosso mundo.

Esta aguarela é um passeio pelo sonho do mundo irreal que todos gostaríamos de viver, todos os dias. Este trabalho, feito na série dos “Jardins Alados”, procura, com minúcia e quase pontilhismo formal, numa exuberância cromática, criar um ambiente muito próprio. História da Minha Pintura.

Hoje lembrei-me das palavras de Pascal Blaise:

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”

E vos deixo com a música de Tchaikovsky e o bailado “Quebra-nozes” que a todos encanta pela beleza, suavidade, elegância e fantasia.



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Os olhos do pintor



Os olhos dizem tudo. Dizem quando estamos bem. Dizem quando tudo está mal. Eles reflectem as nossas emoções. Caracterizam-nos. Identificam-nos. São eles a nossa verdade. Não mentem. Põem-nos a descoberto. Basta saber olhar e eles dizem tudo. Tudo mesmo.

Muitos foram os artistas que deixaram os seus olhares expressos nos auto-retratos, basta ver as belas pinturas de Miró, Lucian Freud, Gilbert & George, Almada Negreiros e Andy Warhol. Actualmente, com as novas tecnologias, há processos de mostrar, divulgar e propagar a imagem e o cultivo do nome e da obra. Este blog procura também ter essa função. Histórias da Minha Pintura.

Hoje recordo as palavras de Blaise Pascal: “Os olhos são os intérpretes do coração.”

E vos deixo com uma canção, em homenagem à minha mãe: “Olhos Castanhos”e a voz de Francisco José.