quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Jardim




Descobrimos o jardim. É o espaço da tranquilidade; do repouso; da paisagem floral; dos caminhos do namoro; da fuga ao rebuliço; dos petizes. E é aqui, também, que gostamos de saborear o devaneio do pensar; ora vamos por caminhos serenos e sensatos; ora imaginamos circuitos fantasmagóricos. E assim passamos o tempo dos registos breves e fátuos deste nosso deambular, nesta vida de canseiras.

Esta tela procura captar os modos de estar num jardim numa tarde de Verão que, como todas as tardes quentes, convidam ao repouso. Observador do meu mundo circundante procurei, aqui, conjugar as cores típicas do espaço e, mais uma vez, usar a perspectiva para sugerir a profundidade do espaço. Histórias da Minha Pintura.

Recordo as palavras de Jean La Bruyère:

“ A natureza é apenas para quem vive no campo.”

E remato com o som da harpa que me fascina sempre, aqui com a mestria de Xavier de Maistre que toca" Moldau "de Smetana.



terça-feira, 27 de outubro de 2009

A nossa casinha




É o nosso espaço. É o nosso lar. É o nosso abrigo. É aqui entre paredes que vivemos, ora rodeados de mordomias, ora comendo o pão que o Diabo amassou. Quer num caso, quer noutro, é o nosso espaço que nos liberta ou oprime. E assim vivemos, felizes, com muito ou pouco e, infelizes, com tanto ou tão pouco, entre paredes da nossa casinha. É a vida. De todos. Pobres e ricos.

Esta pintura retrata uma casa num espaço paradisíaco onde o bem-estar nem sempre é sinónimo de felicidade. Mais uma vez, procurei, nesta pintura, como em todas as outras, criar uma imagem que fosse a expressão do sentir e do desejo. Em termos técnicos a sugestão da volumetria e do espaço é feita através da combinação da perspectiva e das tonalidades cromáticas.Histórias da Minha Pintura.

Recordo hoje um excerto do poema “A Nossa Casa” de Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”:

“…Onde está ela, amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?...”


E vos deixo com a música de Massenet e a obra “Meditação de Thais” que nos dá a tranquilidade e o encanto que todos desejam ao regressar a casa, aqui com a mestria ao violino de Anne-Sophie Mutter.



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Quarto




É o nosso último retiro de todos os dias. É o espaço onde encontramos o outro lado do viver: o dormir. É neste espaço de intimidade que repousamos e cultivamos desejos, encantos ou tormentas. E por aqui ficamos, uma boa parte da vida, entregues ao devaneio dos sonhos e dos prazeres ou da falta deles. E todos os dias o retiro espera por nós. Até ao juízo final.

Esta tela já de 97 é um deambular sobre o espaço que reservamos para os nossos sonhos profundos. Como sempre, gosto de experimentar novas buscas, e aqui, o desejo de retratar um espaço, através de uma geometria com dois pontos de fuga e um conjunto de poucas cores, é a característica dominante deste ambiente de pinceladas rápidas e contidas. Histórias da Minha Pintura.

Recordo as palavras, contundentes mas tão realistas, de Marlene Dietriche:

“Dormir a sós é muito solitário, crianças que o digam. Se possível, durma com alguém que você ama. Vocês recarregarão mutuamente as baterias, e sem custos.”

E vos deixo com a admirável voz de Andreas Schools cantando Bach em “Erbarme dich”.


domingo, 25 de outubro de 2009

Expor





Expor é mostrar aos outros para que pensem bem de nós, do nosso trabalho, das nossas capacidades. É verdade. É mesmo assim. E mostramos o que julgamos merecer ser mostrado. E ao mostrar outros juízos nos julgam . Uns consideramos correctos, outros, talvez mais realistas, são críticas que nos magoam, porque nos avaliam com outros olhos. Entre pareceres diferentes cabe continuar no caminho que construímos. Para o melhor ou para o pior.

Estes retratos feitos em 2003 são parte de um vasto leque de pinturas, em tela, de pessoas que, nesse tempo, fizeram parte do meu universo pessoal. Estes trabalhos foram feitos após um cuidado estudo da pose. Aqui, nesta série, a preocupação dominante foi tentar retratar o mais fiel as personagens e esbater o espaço. Histórias da Minha Pintura.

E recordo um excerto do poema “Sou Eu” de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in “Poemas”:

Sou Eu
“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu…”


E vos deixo com a música de Tchaikovsky e a interpretação ao violino de Anne-Sophie Mutter no Concerto de Violino, 3º movimento.



sábado, 24 de outubro de 2009

Sonhos





Acontece a todos: sonhamos. Sonhamos com realismo e com fantasia. Sonhamos ora conscientes, ora conscientemente inconscientes. E por cá andamos com mais sonhos e menos realizações. Umas vezes crentes, outras, pelo contrário, totalmente descrentes. E a vida continua, todos os dias, independentemente dos nossos sonhos. Sonhemos pois.

Esta aguarela é um sonho, que como todos os sonhos, não se explica: sente-se. Para fazer este trabalho servi-me de um modelo que, mercê do seu sentido da pose, me inspirou para a série de desenhos e aguarelas sobre o sonho. Histórias da Minha Pintura.

Recordo hoje a poesia de Gastão Cruz, in “Órgão de Luzes”:
O Caos do Sonho

“Estou deitado no sonho não
Perturbes o caos que me constrói
Afasta a tua mão

das pálpebras molhadas
Debaixo delas passa
A água das imagens.”


E vos deixo com a música de Monteverdi em “Zefiro torna” e a voz de Jaroussky.



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Intimidade




A nossa casa é o espaço próprio da intimidade; é o lugar das nossas coisas; é onde estão ( ou deveriam estar) os nossos; é onde cada peça tem a sua história; é onde queremos expor a liberdade do estar; é, talvez, onde somos mais autênticos. Talvez.

Esta pintura, em tela, de longa data, retrata um ambiente onde os objectos adquirem os significados inerentes e representam um estado vivencial. Este meu trabalho procura captar a luz e o ambiente da intimidade do lar. Um intricado labirinto de linhas sugere profundidade, as sombras buscam dar volumetria às formas e as cores saturadas têm por finalidade criar uma harmonia cromática. Histórias da Minha Pintura.

Hoje recordo o poema “Intimidade” de José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”:

Intimidade

“ No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressonante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.”


E vos deixo com a voz de Maria Callas cantando “Vissi d´ arte” da ópera Tosca de Giacomo Puccini.



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O nosso cantinho




O nosso cantinho é o lugar por excelência onde gostamos de estar. É no café do costume, na sala perante a televisão, junto ao rio enquanto se finge pescar, ou, no pior dos casos, em lado nenhum. Em casa fomos edificando os bens que nos servem de aconchego e com eles convivemos. E assim passamos o tempo. O pouco tempo que nos coube em sorte. No nosso cantinho.

Esta pintura, em tela, é um retrato dos muitos cantinhos que povoam as nossas casas caracterizadas pelos objectos culturalmente presentes, que nos servem de consolo. Num jogo descritivo, formas e luzes procuram criar uma atmosfera narrativa, em que a perspectiva, muito acentuada, procura dar maior ênfase ao espaço. Histórias da Minha Pintura.

Recordo, um excerto, do poema de Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”:

A Nossa Casa

“A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!”



E vos deixo com a música de Isaac Albeniz e “Asturias”.