sábado, 24 de outubro de 2009

Sonhos





Acontece a todos: sonhamos. Sonhamos com realismo e com fantasia. Sonhamos ora conscientes, ora conscientemente inconscientes. E por cá andamos com mais sonhos e menos realizações. Umas vezes crentes, outras, pelo contrário, totalmente descrentes. E a vida continua, todos os dias, independentemente dos nossos sonhos. Sonhemos pois.

Esta aguarela é um sonho, que como todos os sonhos, não se explica: sente-se. Para fazer este trabalho servi-me de um modelo que, mercê do seu sentido da pose, me inspirou para a série de desenhos e aguarelas sobre o sonho. Histórias da Minha Pintura.

Recordo hoje a poesia de Gastão Cruz, in “Órgão de Luzes”:
O Caos do Sonho

“Estou deitado no sonho não
Perturbes o caos que me constrói
Afasta a tua mão

das pálpebras molhadas
Debaixo delas passa
A água das imagens.”


E vos deixo com a música de Monteverdi em “Zefiro torna” e a voz de Jaroussky.



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Intimidade




A nossa casa é o espaço próprio da intimidade; é o lugar das nossas coisas; é onde estão ( ou deveriam estar) os nossos; é onde cada peça tem a sua história; é onde queremos expor a liberdade do estar; é, talvez, onde somos mais autênticos. Talvez.

Esta pintura, em tela, de longa data, retrata um ambiente onde os objectos adquirem os significados inerentes e representam um estado vivencial. Este meu trabalho procura captar a luz e o ambiente da intimidade do lar. Um intricado labirinto de linhas sugere profundidade, as sombras buscam dar volumetria às formas e as cores saturadas têm por finalidade criar uma harmonia cromática. Histórias da Minha Pintura.

Hoje recordo o poema “Intimidade” de José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”:

Intimidade

“ No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressonante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.”


E vos deixo com a voz de Maria Callas cantando “Vissi d´ arte” da ópera Tosca de Giacomo Puccini.



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O nosso cantinho




O nosso cantinho é o lugar por excelência onde gostamos de estar. É no café do costume, na sala perante a televisão, junto ao rio enquanto se finge pescar, ou, no pior dos casos, em lado nenhum. Em casa fomos edificando os bens que nos servem de aconchego e com eles convivemos. E assim passamos o tempo. O pouco tempo que nos coube em sorte. No nosso cantinho.

Esta pintura, em tela, é um retrato dos muitos cantinhos que povoam as nossas casas caracterizadas pelos objectos culturalmente presentes, que nos servem de consolo. Num jogo descritivo, formas e luzes procuram criar uma atmosfera narrativa, em que a perspectiva, muito acentuada, procura dar maior ênfase ao espaço. Histórias da Minha Pintura.

Recordo, um excerto, do poema de Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”:

A Nossa Casa

“A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!”



E vos deixo com a música de Isaac Albeniz e “Asturias”.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Rotinas




Rotinas. É o nosso viver. Todos os dias fazemos as mesmas coisas. E assim passamos o tempo. E a vida também. E tudo acaba com a repetição dos mesmos gestos, das mesmas práticas, das mesmas expectativas. E o sabor da descoberta, do prazer das coisas belas passa tudo num ápice, quando passa. E por cá continuamos de rotina em rotina. Hoje por aqui. Amanhã por acolá. De rotina em rotina. Até ao fim. É a nossa sina. Dos crentes e não crentes.

Esta pintura em tela é o retrato de uma rotina. De uma viagem talvez para os sítios do costume. Para a rotina dos dias cinzentos. Para fazer esta obra recorri a instrumentos de rigor e utilizei a perspectiva com um único ponto de fuga para acentuar a profundidade e em simultâneo procurei que as cores, também elas, numa relação tonal, sugerissem os vários planos. Histórias da Minha Pintura.

Hoje trago palavras de Anne Noailles:

“Nada é real, a não ser o sonho e o amor.”

E vos deixo com a música sempre encantadora de Liszt: “Liebestraume.”


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Distâncias




É o andar por aí que nos leva a descobrir outros modos de ser, estar e olhar o mundo. E, ao descobrir outras realidades, ficamos diferentes e percebemos o que nos aproxima, e, afasta de uns e de outros. Umas vezes vamos na onda das modas. Outras queremos compreender e ficamos distantes. Distantes de tudo. De tudo mesmo. Somos assim.

Esta pintura, dos primórdios da minha carreira, caracteriza um gosto pela beleza industrial que teve em Léger um apaixonado pela nova paisagem criada com as fábricas e o mundo operário. Nesta tela, de grandes dimensões, procurei, com cores rosa, captar um fragmento de uma composição dos comboios ,que me encantou nos finais dos anos 70 e princípios de 80. Histórias da Minha Pintura.

Recordo hoje as palavras de Charles Chaplin:

“Quem está distante sempre nos causa maior impressão.”


Termino com a música (que tanto me sensibiliza) do compositor checo Smetana e “O Moldava”



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A cidade




Hoje uma casa, depois outra, e mais outra e, assim, foram nascendo os lugarejos que, paulatinamente, fizeram nascer as cidades. Elas têm tudo. Oferecem serviços, empregos e muita vida. E, deste modo, vivemos quase todos em burgos. Com muita companhia e poucos amigos. É a vida. Dos nossos dias. Das nossas cidades.

Gosto de me colocar à prova enquanto pintor. Trabalho por séries e uma delas consistiu em pintar espaços urbanos. Esta pintura em tela é um retrato de um pequeno espaço citadino onde, propositadamente, excluí pessoas. Aqui procurei destacar as tonalidades da nossa arquitectura e as suas características formais. Histórias da Minha Pintura.

Hoje lembrei-me das palavras de Lawrence Durrell:

“Uma cidade é um mundo se amarmos um dos seus habitantes.”

E vos deixo com a música de um compositor norte-americano Gerswin que soube transmitir,por sons, a vida das cidades em "Rhapsody in blue”.


domingo, 18 de outubro de 2009

Modas






A característica dominante do nosso tempo é a moda. Tempo de consumo e de cansaço. Tudo é fruído e gasto no instante. Tudo é tão volátil. Nada somos. Nada valemos. Infelizmente é assim mesmo. Tantas canseiras, tantas lutas, e, tudo passa. Tudo acaba. A moda de hoje é uma força dominante, no entanto, já amanhã, outra moda, outros desejos, outros intérpretes, outros caminhos levam-nos para novos rumos. E aqui estamos levados na onda do tempo e do esquecimento.

Estes desenhos procuram retratar a(s) moda(s) do estar e sentir que nos levam a ter posturas de acordo com as circunstâncias, o meio, e a aparência social que o mercado dita. Os meus desenhos são, quase todos, sem a presença do modelo e parcos em cores. O meu objectivo primordial é a descoberta das formas e a construção de cenários, para mais tarde pintar em tela. Histórias da Minha Pintura.

E Henry Miller, conhecido pelo seu modo boémio e excêntrico disse:

“Cada momento é de ouro se o soubermos reconhecer como tal.”

E vos deixo com a voz de um cantor fora de moda em “Love Me tender”: Elvis Presley.