sábado, 17 de outubro de 2009

Viagens



O aparecimento do comboio mudou a paisagem por onde passa, mudou a sociedade servida por ele, e mudou a vida das pessoas. Os artistas souberam tirar partido dele. No cinema, no teatro, na literatura, na música, nas artes plásticas todos têm dado o seu contributo, falando do cavalo de ferro que veio para ficar, e ajudar a criar um mundo novo.

O meu trabalho tem sido o de explorar todos os caminhos. É o prazer da descoberta que me conduz sem nunca saber para onde. Nesta série (trabalho sempre por séries) fiz da plasticidade formal dos comboios, a minha inspiração pictórica, em telas de grande formato executadas nos finais dos anos setenta. Artistas como Monet e Hopper são o exemplo do fascínio dos comboios nas artes plásticas. Histórias da Minha Pintura.

Hoje recordo as palavras de Alphonse de Lamartine:
“Não há homem completo que não tenha viajado muito, que não tenha mudado vinte vezes de vida e de maneira de pensar.”


E vos deixo com a poesia de Fernando Pessoa e a voz de José Afonso:
“ No comboio Descendente.”


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Faz de conta



Vivemos num faz de conta. O importante é a aparência dos usos e costumes. Importante mesmo é manter tudo como dantes, embora o antes seja passado e não presente. É em todo o lado. Tudo e todos fazem de conta. E assim continuamos. Viva o faz de conta!!!

E a pintura que vos trago, para esta crónica, é uma tela, em grande formato, de um automóvel, por excelência, o mais apelativo e quantas vezes caracterizador do ter e não ter, neste mundo do desejo infinito pela posse de tudo e mais alguma coisa. Aqui, com uma pincelada, numa aproximação mais hiper-realista, procurei captar minúsculas parcelas deste objecto do desejo. Histórias da Minha Pintura.

E lembrei-me de Eugénio de Andrade e do poema “Faz de conta”:

“- Faz de conta que sou abelha.- Eu serei a flor mais bela
- Faz de conta que sou cardo.- Eu serei somente orvalho.
- Faz de conta que sou potro.- Eu serei sombra em Agosto.
- Faz de conta que sou choupo.- Eu serei pássaro louco, pássaro voando e voando sobre ti vezes sem conta.
- Faz de conta, faz de conta.”

Nada melhor na música do “faz de conta” que Mozart e Don Giovanni com a voz de Callas em “Non mi dir”.



quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Vinte anos



Para todos vinte anos significa muito. Para uns é mais um período de recordações do passado. Para outros é uma etapa da vida que agora começa com contornos novos. Para todos é, afinal, o tempo vivido que não se repete e que nos deixa com esperanças, ou, no pior dos casos, o fim dos sonhos, dos muitos sonhos que começaram, sobretudo, com os vinte anos. Vinte anos.

A imagem de hoje é uma homenagem aos vinte anos pelo trabalho, pela dedicação e também aos que têm a beleza e o encanto dos vinte anos. Este desenho, a lápis de cor, é um dos muitos registos que faço em busca do sossego e do prazer únicos do criar imagens novas, que só a arte me dá. Histórias da Minha Pintura.

Recordo hoje Ary dos Santos:
“Ai quanto caminho andado
Desde o primeiro poema:
Quanto furor amassado
Quanto pavor que envenena
Quanto amor desesperado
Quanta cilada pequena
Ai quanto caminho andado
Contudo valendo a pena…”

E vos deixo com os loucos anos vinte, a música desse tempo e a descoberta do saber viver, liberto das amarras e dos preconceitos sociais e religiosos.



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Não



Não
Não podemos mudar o ciclo da vida.
Não podemos continuar a desejar o que já não faz parte da realidade tal como ela é.
Não podemos ambicionar este mundo e o outro, esquecendo tudo e todos.
Não podemos fechar os olhos e não ver o que se passa.
Não podemos.
Não, não; não podemos.

Esta pintura é o retrato das muitas fugas que podemos ter, lendo o que outros escreveram de contextos e cenários, que nos transportam para horizontes longínquos. Mais uma vez, num ambiente rural, a representação desta temática procura, num jogo inquietante de cores, sugerir um espaço bucólico e aparentemente aprazível, em que a geometria busca a ilusão do espaço. Histórias da Minha Pintura.

O escritor italiano Corrado Alvaro (1895-1956) disse, in “Il nostro tempo e la speranza”:

“O homem não se conhece o suficiente para medir aquilo de que precisa.”


E vos deixo com a música de Gaetano Donizetti em “Lucia di Lammermoor” e “Il dolce suono” com Joan Sutherland em 1959. Esta ópera, como as demais, é um intrigado enredo de tragédias que, como na vida e na arte, nos envolvem.


terça-feira, 13 de outubro de 2009

Porto




A Cidade Invicta seduz quem a vê e contacta com as suas gentes; é a atmosfera tão intimista; é a herança cultural; é o passado tão presente; é o granito que preenche a arquitectura; é o rio; é a pronúncia; é o bairrismo; é o S. João tão carismático; é o ser português que se sente a cada esquina; é a beleza e o colorido dos contrastes; é tanto, tanto, tanto.

Esta tela é um olhar sobre uma varanda, tão usual na paisagem do casario portuense. Aqui procurei mostrar as cores térreas que caracterizam muitas das casas peculiares do Porto. Para fazer esta pintura utilizei instrumentos rigorosos, como sejam a régua, o esquadro e o compasso, aliado a uma pincelada muito cuidada e morosa. Histórias da Minha Pintura.

E hoje trago um excerto do poema “ Quando Eu Sonhava”do portuense Almeida Garrett:

Quando Eu Sonhava

“Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar…”


E vos deixo com uma homenagem à violoncelista portuense Guilhermina Suggia (1885-1950).


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Lisboa





Lisboa encanta quem a visita; é a luz; é o rio; é o casario; é as gentes multiculturais; é o cheiro; é Alfama; é o Bairro Alto; é a Mouraria; é Belém; é este bairro e o outro; é a noite; é o fado; é a festa popular; é a sardinha; é a dimensão; é tudo afinal.

Estas duas pinturas, sobre tela, são um olhar sobre a capital que tantos ilustraram, basta pensar em Almada Negreiros, Maluda ou Elóy. Procurei, numa geometria rigorosa, captar as cores, a luz e a atmosfera de Lisboa. Histórias da Minha Pintura.

Recordo as palavras de Manuel Alegre, in “Babilónia.”

Excerto do poema Balada de Lisboa:

"Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo…”


E vos deixo com a voz e a música de Paulo de Carvalho e a letra de Ary dos Santos:

“Lisboa, menina e moça.”



domingo, 11 de outubro de 2009

É assim




É a vida dos povos. É a vida das pessoas. É a nossa vida. A vida de todos os dias. Umas vezes felizes, outras, nem tanto. É assim. Assim mesmo. Conscientes ou não, dos nossos deveres e dos nossos direitos, por cá andamos, ora edificando o nosso futuro, ora adiando, mais uma vez, novos caminhos.

Esta tela é um olhar sobre a cidade que, como todas as cidades, reflectem os nossos modos de estar e ser. Esta minha pintura surgiu do desejo de criar a concepção do espaço e da escala humana obedecendo a um rigoroso jogo métrico. Aqui, utilizando a régua e o esquadro fui edificando os elementos formais numa perspectiva centralizada. Histórias da Minha Pintura.

E recordo as palavras de Camilo Castelo Branco:

“A civilização é a razão da igualdade.”

E vos deixo com a música de George Gershwin e “Summertime”.