segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A voz dos inocentes



Chegou a hora. Chegou a hora da voz dos inocentes. Finalmente chegou. Está na hora. Está na hora de falar, de dizer o que nos vai na alma, de falar bem alto o que queremos e porque queremos. Está na hora. É agora ou nunca. É chegado o momento da voz dos inocentes. A nossa voz.

Esta aguarela retrata dois universos tão coexistentes e diametralmente opostos. Os artistas têm sido, através dos tempos, os mensageiros dos modos de estar e sentir o mundo. O jogo das cores complementares e a divisão do espaço procuram, neste meu trabalho, retratar este nosso mundo tão desigual e inquietante.

E, aqui hoje, a inocência com as palavras de Florbela Espanca, in “ Charneca em Flor”:

Não Ser

“ Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!
…”

E nada melhor terminando, esta crónica diária, com Hendel, em Rinaldo, HWV 7 “ Lascia Ch’io Pianga” na voz de Jarouussky para exprimir o amor, as lutas e sobretudo a voz dos inocentes.



domingo, 30 de agosto de 2009

Regressos





É o ritual do costume. Agora é o regressar das terras longínquas ou mesmo ali ao lado; é o regressar dos melhores e mais aprazíveis destinos turísticos, ou do campismo com direito a sofá e televisão para as horas da telenovela. É mesmo assim. E assim vivemos com a nossa felicidade. Uns com mais comprimidos anti-depressivos, outros, encontrando escapes socialmente ou não recomendáveis. E cá estamos nós, de novo, para as labutas do costume, por uns tempos mais queimadinhos e tristemente felizes. É a vida. De todos nós.


E porque a vida é um acumular de experiências e vivências, esta imagem traduz o meu eterno desejo de captar, registar e saborear o vivido. É a vida…de um pintor.

Hoje trago a poesia do meu amigo José Fanha e o poema “ A Propósito De Duas Pinturas De Watteau”:

“Em muitas cores me revejo
Feliz mas desencontrado
Pois vejo sempre outro lado
por trás do lado que vejo.”

E vos deixo com o fado de Coimbra e “ Samaritana”.


sábado, 29 de agosto de 2009









Influências




A circunstância, o meio e o desejo levam-nos a receber influências que marcam e definem o carácter e até a nossa vida. As nossas vidas. Uns são bafejados pelos deuses da sorte, outros, até mais capazes não conseguiram transpor as barreiras e ficaram para sempre na lama e na tristeza do obscuro viver. Uns descobrem em tempo os caminhos que muitos perfilam, no entanto, tantos há que só muito depois, e o depois significa outras eras, reconhecidos são. Quer uns, quer outros ajudaram a mudar o mundo, ora para o bem, ora para o mal. E assim caminhamos com as boas causas e, infelizmente, também com os maus desígnios.

África influenciou artistas como Picasso, Modigliani e Rodrigo, por exemplo. Eu que vivi alguns anos em terras africanas, de quando em vez, trabalho pensando nos grandes mestres e no meu passado. Esta imagem retrata também um desenho que, aqui, é um mero registo.

Li e adorei o Testamento do poeta luso-moçambicano Rui Knopfli:
“Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
A outra interminavelmente…”
E vos deixo com a voz de Louis Armstrong cantando: What a wonderful Word”.


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O paraíso



O paraíso é o lugar ideal e o tempo certo onde tudo acontece na perfeição. Para mim o paraíso era pintar quando fosse essa a minha vontade, e não quando posso nas tardes de domingo; era ouvir as mais belas músicas, e não os discursos sem nexo; era viver serenamente sem as angústias minhas e dos outros; era nunca ter maleitas; era não ter medo do medo, e dos males que poderão cair nos meus; era ver o meu clube ganhar e dar-me alegrias, em vez de tormentas; era dizer o que me vai na alma; era tudo e nada ao mesmo tempo; era viver fora de mim; era eu ser outro, sendo eu mesmo; era…

Esta imagem é a simbologia da crença numa existência onde se busca a paz, que apenas existe no paraíso, que fica algures, em lado nenhum. Aqui, mais uma vez, a liberdade da criação permite a utilização de cores e formas, em excesso, como modo de representar plasticamente.


Recordo hoje as palavras de Marcel Proust, in “O Tempo Reencontrado”:

“ Os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam”

E vos deixo com alguns trechos das melhores peças de Mozart, que certamente representam uma viagem em busca do paraíso.



quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O nosso mundo




Todos os dias o mundo onde vivemos (e só há este) muda. E nós mudamos também. Quem não muda, quem não quer mudar fica de fora. De fora significa caminhar contra a maré que tritura e destrói tudo e todos. Assim é. Para o melhor e para o pior. O pior é estar no sítio errado, no tempo errado. Este é o grande drama do nosso século. Circulamos de uma ponta a outra do planeta, encontramos culturas e modos de viver com interesses diferentes, e porque queremos impor os nossos ideais vivemos eternamente em conflito. Conflito de gerações e de povos. Até ao fim da nossa existência. Até ao fim do nosso mundo.

Esta aguarela ironicamente chamada “Jardim das Delícias”é a entrada de um espaço que criámos para enterrar os nossos entes queridos e chorar quantas vezes pela saudade e pelo remorso. Quantas vezes?

E recordo hoje, mais uma vez, Fernando Pessoa e “ O Livro do Desassossego”:

“ …Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.”

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Rir




Nada melhor que rir. Rir de alegria, de prazer, de felicidade. Rir com os amigos, rir com aqueles que amamos, rir com vontade de rir. Rir, como dizia o Almada, “ É a coisa mais séria da vida”.

Esta pintura em tela é um retrato que, como todos os outros, procura captar características únicas do retratado. Aqui o riso é a forma de expressão que julguei mais indicadora da personalidade do modelo, embora reconheça que na História da Pintura não é muito vulgar a representação do riso, porque rir é um estado de alma, que ultrapassa, felizmente, as normas e as posturas das rígidas vivências sociais. Rir, acontece quando estamos com aqueles que nos são próximos e rimos, umas vezes com malícia, outras com ternura, outras porque a vida também é para rir.


E vos deixo com a mestria e a genialidade daquele que fez do rir uma postura de vida, como aqui nesta obra, onde as trocas e baldrocas das relações humanas e das convenções matrimoniais são postas a ridículo com muito riso: Mozart e a ópera Don Giovanni aqui com a soprano Cristine Schafer e o barítono Simon Keenlyside cantando “ Là ci darem la mano”.