quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Rir




Nada melhor que rir. Rir de alegria, de prazer, de felicidade. Rir com os amigos, rir com aqueles que amamos, rir com vontade de rir. Rir, como dizia o Almada, “ É a coisa mais séria da vida”.

Esta pintura em tela é um retrato que, como todos os outros, procura captar características únicas do retratado. Aqui o riso é a forma de expressão que julguei mais indicadora da personalidade do modelo, embora reconheça que na História da Pintura não é muito vulgar a representação do riso, porque rir é um estado de alma, que ultrapassa, felizmente, as normas e as posturas das rígidas vivências sociais. Rir, acontece quando estamos com aqueles que nos são próximos e rimos, umas vezes com malícia, outras com ternura, outras porque a vida também é para rir.


E vos deixo com a mestria e a genialidade daquele que fez do rir uma postura de vida, como aqui nesta obra, onde as trocas e baldrocas das relações humanas e das convenções matrimoniais são postas a ridículo com muito riso: Mozart e a ópera Don Giovanni aqui com a soprano Cristine Schafer e o barítono Simon Keenlyside cantando “ Là ci darem la mano”.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Passeios de Verão




É vê-los passar. Carros cheios de gente, malas e maletas. Aí vão eles para os lados do costume. Aos montes e felizes. Felizes por deixar para trás as referências diárias, e, partir em busca de horizontes diferentes. E o diferente seduz, encanta e enfeitiça. Diferente que é tão igual tantas vezes. É igual quando os passeios de domingo se fazem pelos mesmos caminhos; é igual quando as férias de Verão são na praia ou nas termas de sempre; é igual quando as canseiras e as maleitas se repetem; é igual quando não queremos ser diferentes. E não queremos ser diferentes, mesmo nos passeios de Verão.

Esta aguarela retrata um beijo tão comum nas vidas tórridas do Verão. Aqui a fantasia de vários espaços conjugados numa mescla de perspectivas, só possível no mundo imaginário, mais não é que a ilusão da vida e da arte.


E vos deixo com a música de Ciacomo Puccini, in Tosca, aqui no trecho E Lucevan le stelle cantado por Placido Domingo.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Lembranças





Hoje lembrei-me de Cesário Verde e do poema “Flores Velhas”:

"Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em ti vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um voo…
"

Esta aguarela fez parte dos muitos estudos que realizei para ilustrar um livro de poemas de um amigo meu, e que agora me parece retratar este excerto do genial poeta que recordo hoje.

E vos deixo com um belo trabalho feito numa escola sobre o poeta que me encanta, de quando em vez.




domingo, 23 de agosto de 2009

Açores




Fiquei deslumbrado com os Açores. De um lado o mar, do outro, mesmo ali, o campo e a serra. É a conjugação perfeita de dois mundos. O verde matizado da natureza e o azul limpo e translúcido do oceano. O clima é tão próprio e ameno nas tardes quentes e incendiárias do Verão. Ali, naquele cantinho que não parece Portugal, está uma parte do paraíso, e que, a maioria dos portugueses, conhecedores das praias do outro lado do planeta, nem sonham com tanta beleza e tanto encanto. Nem sabem o que perdem. São outros modos de ver e sentir o mundo.

Esta pintura só foi possível depois de estar nos Açores. As minhas viagens servem para isso mesmo: absorver o vivido e transpor para a tela o observado. Sou sempre um pintor, mesmo longe das telas, das tintas e dos pincéis. A exuberância da natureza e a abundância do que vi só poderia conduzir a um excesso de pormenores nas minhas pinturas. Esta é a explicação que encontro para justificar o porquê, de ter colocado tantos elementos pictóricos, após ter conhecido os Açores. Segredos…da minha pintura.

E termino recordando Vitorino Nemésio com o excerto do poema “ Que Bem Sabe o Amor Constante”:

“Até no carro te canto,
Fala a fala, seio a seio,
Espantado de um encanto
Que mais parece receio

De te perder à partida
Pra te ganhar á chegada
Pois tu és a minha vida
Na ida e volta arriscada…”

sábado, 22 de agosto de 2009

Os tesouros





Temos tantos tesouros. Uns materiais, outros afectivos. Aqueles que amamos e que gostam de nós são, sem dúvida, os tesouros maiores. Os maiores de todos. Depois temos os outros, os tesouros materiais que valem o que valem, de acordo com a nossa personalidade, os nossos desejos, os nossos sonhos, a nossa cultura. Um dos meus tesouros é a colecção completa das obras de Mozart. É um tesouro enorme para mim. Vale o que vale, porque eu preciso de ouvir o genial compositor austríaco. Ele é um pouco de mim, porque todos os dias ouço a sua música. E quem descobre Mozart encontra e tem tantos tesouros.

Muitos foram os grandes homens de letras que escreveram sobre a música e não resisto a este excerto do poema “A Música“de Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”:

A música para mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!...”

E, porque hoje falo de Mozart, termino com a excelência da genial “Flauta Mágica” aqui na voz que mais admiro – Dietrich Fischer-Dieskau, no papel de Papageno.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Infelizmente



Vivemos ora rodeados de tudo, ora sem quase nada. Este é o nosso mundo. De um lado a abastança; do outro, a penúria. De um lado da barricada há Valores. Há Direitos e Deveres. Uns só sabem o que é Direitos; outros, nem sabem o que é Deveres. E ainda outros nunca tiveram nem Direitos, nem sabem o que é Valores. E assim vivemos. Uns conscientes de que a vida afinal é curta. Outros pensando que o muito é pouco e só ambicionam ter mais e mais. E assim vivemos. Sempre assim foi. Talvez seja o nosso fado. Queiramos ou não. Infelizmente.


Esta obra representa a figuração do poder fora de moda. Gosto de fantasiar e ultrapassar a realidade, muito mais, sempre que faço uma aguarela.

E vos deixo hoje com Fernando Pessoa que já escrevia negativamente sobre a vida no "O Livro Do Desassossego:

“ O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão…”

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pobre país




Pobre mundo este do chamado progresso e evolução social. Pobres, de nós, condenados ao silêncio e à solidão. Longe vão os tempos das famílias numerosas, das casas cheias, dos imprevistos e da comunhão dos afectos. Agora temos por companhia os cães e os gatos. São eles, os nossos amigos, com quem desabafamos nas muitas horas de solidão e tristeza. O que vejo é um país a envelhecer, sem gente jovem que renove a esperança e traga a vitalidade. O que vejo é a minha gente lusitana sem futuro. Pobre país. O meu país.

Esta aguarela retrata os gatos que servem de companhia àqueles que ficaram sós. Sob o ponto de vista plástico adoro retratar estes animais porque têm uma presença física esbelta. Estes felinos fazem parte da História da Arte desde sempre. Picasso, Chagall e Balthus não resistiram à beleza e ao encanto dos gatos, que nos servem tanto de companhia.

E vos deixo hoje com a música de Bellini que me tem servido de companhia: Norma, aqui com a voz inconfundível da Maria Callas em Casta Diva.