terça-feira, 25 de agosto de 2009

Passeios de Verão




É vê-los passar. Carros cheios de gente, malas e maletas. Aí vão eles para os lados do costume. Aos montes e felizes. Felizes por deixar para trás as referências diárias, e, partir em busca de horizontes diferentes. E o diferente seduz, encanta e enfeitiça. Diferente que é tão igual tantas vezes. É igual quando os passeios de domingo se fazem pelos mesmos caminhos; é igual quando as férias de Verão são na praia ou nas termas de sempre; é igual quando as canseiras e as maleitas se repetem; é igual quando não queremos ser diferentes. E não queremos ser diferentes, mesmo nos passeios de Verão.

Esta aguarela retrata um beijo tão comum nas vidas tórridas do Verão. Aqui a fantasia de vários espaços conjugados numa mescla de perspectivas, só possível no mundo imaginário, mais não é que a ilusão da vida e da arte.


E vos deixo com a música de Ciacomo Puccini, in Tosca, aqui no trecho E Lucevan le stelle cantado por Placido Domingo.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Lembranças





Hoje lembrei-me de Cesário Verde e do poema “Flores Velhas”:

"Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em ti vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um voo…
"

Esta aguarela fez parte dos muitos estudos que realizei para ilustrar um livro de poemas de um amigo meu, e que agora me parece retratar este excerto do genial poeta que recordo hoje.

E vos deixo com um belo trabalho feito numa escola sobre o poeta que me encanta, de quando em vez.




domingo, 23 de agosto de 2009

Açores




Fiquei deslumbrado com os Açores. De um lado o mar, do outro, mesmo ali, o campo e a serra. É a conjugação perfeita de dois mundos. O verde matizado da natureza e o azul limpo e translúcido do oceano. O clima é tão próprio e ameno nas tardes quentes e incendiárias do Verão. Ali, naquele cantinho que não parece Portugal, está uma parte do paraíso, e que, a maioria dos portugueses, conhecedores das praias do outro lado do planeta, nem sonham com tanta beleza e tanto encanto. Nem sabem o que perdem. São outros modos de ver e sentir o mundo.

Esta pintura só foi possível depois de estar nos Açores. As minhas viagens servem para isso mesmo: absorver o vivido e transpor para a tela o observado. Sou sempre um pintor, mesmo longe das telas, das tintas e dos pincéis. A exuberância da natureza e a abundância do que vi só poderia conduzir a um excesso de pormenores nas minhas pinturas. Esta é a explicação que encontro para justificar o porquê, de ter colocado tantos elementos pictóricos, após ter conhecido os Açores. Segredos…da minha pintura.

E termino recordando Vitorino Nemésio com o excerto do poema “ Que Bem Sabe o Amor Constante”:

“Até no carro te canto,
Fala a fala, seio a seio,
Espantado de um encanto
Que mais parece receio

De te perder à partida
Pra te ganhar á chegada
Pois tu és a minha vida
Na ida e volta arriscada…”

sábado, 22 de agosto de 2009

Os tesouros





Temos tantos tesouros. Uns materiais, outros afectivos. Aqueles que amamos e que gostam de nós são, sem dúvida, os tesouros maiores. Os maiores de todos. Depois temos os outros, os tesouros materiais que valem o que valem, de acordo com a nossa personalidade, os nossos desejos, os nossos sonhos, a nossa cultura. Um dos meus tesouros é a colecção completa das obras de Mozart. É um tesouro enorme para mim. Vale o que vale, porque eu preciso de ouvir o genial compositor austríaco. Ele é um pouco de mim, porque todos os dias ouço a sua música. E quem descobre Mozart encontra e tem tantos tesouros.

Muitos foram os grandes homens de letras que escreveram sobre a música e não resisto a este excerto do poema “A Música“de Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”:

A música para mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!...”

E, porque hoje falo de Mozart, termino com a excelência da genial “Flauta Mágica” aqui na voz que mais admiro – Dietrich Fischer-Dieskau, no papel de Papageno.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Infelizmente



Vivemos ora rodeados de tudo, ora sem quase nada. Este é o nosso mundo. De um lado a abastança; do outro, a penúria. De um lado da barricada há Valores. Há Direitos e Deveres. Uns só sabem o que é Direitos; outros, nem sabem o que é Deveres. E ainda outros nunca tiveram nem Direitos, nem sabem o que é Valores. E assim vivemos. Uns conscientes de que a vida afinal é curta. Outros pensando que o muito é pouco e só ambicionam ter mais e mais. E assim vivemos. Sempre assim foi. Talvez seja o nosso fado. Queiramos ou não. Infelizmente.


Esta obra representa a figuração do poder fora de moda. Gosto de fantasiar e ultrapassar a realidade, muito mais, sempre que faço uma aguarela.

E vos deixo hoje com Fernando Pessoa que já escrevia negativamente sobre a vida no "O Livro Do Desassossego:

“ O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão…”

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pobre país




Pobre mundo este do chamado progresso e evolução social. Pobres, de nós, condenados ao silêncio e à solidão. Longe vão os tempos das famílias numerosas, das casas cheias, dos imprevistos e da comunhão dos afectos. Agora temos por companhia os cães e os gatos. São eles, os nossos amigos, com quem desabafamos nas muitas horas de solidão e tristeza. O que vejo é um país a envelhecer, sem gente jovem que renove a esperança e traga a vitalidade. O que vejo é a minha gente lusitana sem futuro. Pobre país. O meu país.

Esta aguarela retrata os gatos que servem de companhia àqueles que ficaram sós. Sob o ponto de vista plástico adoro retratar estes animais porque têm uma presença física esbelta. Estes felinos fazem parte da História da Arte desde sempre. Picasso, Chagall e Balthus não resistiram à beleza e ao encanto dos gatos, que nos servem tanto de companhia.

E vos deixo hoje com a música de Bellini que me tem servido de companhia: Norma, aqui com a voz inconfundível da Maria Callas em Casta Diva.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Viagens na minha terra





Adoro ir por aí. Por aí onde sei que estou seguro e contemplativo. Gosto de saborear novas paisagens e conhecer outros modos e outros encantos. Por aí é também perto de casa, por ruelas, pracetas e ribeiros ornamentados e apaladados pelo sabor lusitano. Por aí é viajar na minha terra, na minha identidade com a minha gente, com os dissabores próprios mas tão autênticos. Por aí é descobrir o meu passado, as minhas origens, as minhas memórias. Por aí é saber quem sou e porque sou quem sou.

De quando em vez faço uns desenhos grotescos. Gosto de experimentar o excesso da forma como fuga da elegância estereotipada dos nossos dias. Este desenho é um jogo de descobertas, porque a arte deve ser sempre uma procura de descobertas.

E recordo as palavras de Almeida Garrett, in "Viagens na minha terra":
“ …Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século…”