sexta-feira, 31 de julho de 2009

O outro lado





Há sempre o outro lado. Somos todos diferentes. Fisicamente e mentalmente. É o eterno dilema do conflito de gerações. Se não são as gerações é a natureza humana. São os valores ou a falta deles. Há sempre um outro modo de ver e analisar a mesma questão de pontos de vista diferentes. Há sempre o outro lado. O outro lado significa tudo aquilo que nos aproxima e nos afasta. O outro lado é a razão suprema dos interesses, dos desejos, da determinação, da certeza ou da ignorância, da razão ou da falta dela de acordo com os princípios vigentes. O outro lado somos nós. Somos sempre nós. O outro lado.

A obra que hoje vos apresento é uma aguarela que utilizei no livro “Poetas Visitados”para ilustrar a poesia de Casimiro de Brito. E é com este poeta que termino apresentando um excerto do poema “Poema Inédito” :


“ Enquanto canto, esta coisa pequenina
a que chamam vida, dói. É uma dor nos ossos
como se a terra que trago tremesse
leve – como se a mãe, que sempre me acolheu, me
expulsasse…”

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Não temos tempo





Não temos tempo. Não temos tempo para nada. O tempo, sempre o tempo, esgota-se e nada fazemos dos sonhos e dos desejos. E assim se vive sem tempo. Tempo para fazer dos sonhos realidade. E sonhamos eternamente com o tempo que não temos, e com o tempo que tivemos e que não soubemos tirar partido dele. Dele, do tempo. Enfim, coisas do tempo, ou de não saber o que é o tempo. E o tempo foi-se e com ele os sonhos. E a vida também.

Esta aguarela é uma homenagem às mães e aos filhos, e já agora, também, ao tempo que não temos.

E vos deixo hoje com a canção que mais gosto de ouvir, na voz de Kiri Te Kanawa: “ O Mio Babbino Caro”, de Puccini.



quarta-feira, 29 de julho de 2009

O tempo errado




Acontece a todos. Todos temos a sensação que muitas coisas que desejamos só acontecem, quando acontecem, fora do tempo e não no instante desejado. Queremos isto e aquilo. Obtemos isto e aquilo, depois. O depois significa, por vezes, muito tempo depois. Anos e anos. É o hiato, esse tempo perdido, que nos faz viver no tempo errado. É a vida.

Esta aguarela retrata um oásis que, alegoricamente, é o local mais desejado do deserto. Aqui utilizei, em termos formais, cor, linha e pontos. Muitos pontos. Pontinhos. Seurat é um dos artistas que criou o Pontilhismo movimento caracterizado pela utilização de pequenas manchas e pontos de cor que geram ilusão óptica e que eu admiro. E muito.

E vos deixo com as palavras do admirável Cesário Verde com um excerto do poema Ironias Do Desgosto:

“Onde é que te nasceu – dizia-me ela às vezes –
O horror calado e triste às coisas sepulcrais?
Porque é que não possuis a verve dos Franceses
E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais?...”

terça-feira, 28 de julho de 2009

A linha




O meu trabalho artístico tem um elemento formal constante. Não é a mancha, não é a luz, não é o tema, não é a cor, não é isto, nem aquilo. É a linha. A linha é o princípio e o fim. Começa com linhas e acaba com linhas. Começa quando desenho, e desenho sempre. Começo por desenhar tudo o que vou pintar e termino assinando o meu nome na parte da frente da tela, e também na parte de trás.

A composição é dominada pelo desenho mesmo que seja a cor, o tema, o enquadramento ou outro qualquer elemento a chamar a atenção. O desenho é a alma do meu trabalho e a linha a sua alma gémea.

Este desenho mais não é que a conjugação de linhas, quase todas com a mesma expressividade e espessura, que acabam por definir uma imagem tão comum aos pintores: caixa com tintas, pincéis e tela no cavalete. O número, que surge no desenho, nasceu de um diálogo que tive com um conhecido e já falecido galerista. E mais não digo. Segredos da minha pintura…

Os poetas do meu país



Não sei falar deles.
Não sei que dizer de tantos.
Só sei que alguns vivem comigo.
Felizmente.


E vos deixo, hoje, com o meu amigo José Fanha que vive a poesia, a declamação e o gostar de estar com as palavras.



segunda-feira, 27 de julho de 2009

Poetas Visitados





Portugal tem poetas, poetas e poetas. E bons. E o destino tem destas coisas: tive a feliz sorte de participar num projecto com poetas. O livro “Poetas Visitados” é muito mais que um livro de poesia: é entrevista, é poesia, é pintura e é, também, uma obra de colecção. Foi tudo lindo e bonito. O livro, as pessoas, e os eventos ocorridos no lançamento no Porto e em Lisboa. Tudo foi tratado com profissionalismo pelo editor, da Caixotim, Paulo Samuel e pela jornalista e poetisa Maria Augusta Silva, a autora das entrevistas aos poetas do meu país.

Esta aguarela “ Labirinto” foi a que escolhi para a capa do livro Poetas Visitados, dado considerar que toda a poesia é um labiríntico modo de retratar a vida.
E vos deixo com as palavras de Maria Augusta Silva:

“A poesia é a minha própria pele. É a minha respiração mais profunda”.





Poesia de António Gedeão cantada por Adriano Correia de Oliveira com o belíssimo poema “Lágrima de Preta”.

domingo, 26 de julho de 2009

Há dias assim



Há dias assim. As palavras não surgem com a cadência e o significado que gostaria que tivessem. Há dias assim. Tudo está no sítio errado. Tudo parece mal. Tudo é nada e nada é tudo. Há dias assim. É a palavra, é este gesto e o outro, é esta atitude e aquela, é o não saber estar, é tanta coisa. Há dias assim. Faço tristes quem não merece. Complico o que é fácil. Não sei fazer nada. Nada me sai bem. Há dias assim.

Esta pintura enquadrada na temática dos retratos (adoro fazer retratos) tem a postura que considero mais própria para fazer da arte pictórica um mar de interrogações e considerações estéticas. Prefiro que os olhares dos retratados estejam direccionados para outros horizontes, como forma de criar dúvidas sobre o que se passa para lá do espaço pictórico. Histórias … da minha pintura.

E vos deixo com um excerto de um poema de Florbela Espanca, inA Mensageira das violetas”:

“ …Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d`alvorada!...”