domingo, 26 de julho de 2009

Há dias assim



Há dias assim. As palavras não surgem com a cadência e o significado que gostaria que tivessem. Há dias assim. Tudo está no sítio errado. Tudo parece mal. Tudo é nada e nada é tudo. Há dias assim. É a palavra, é este gesto e o outro, é esta atitude e aquela, é o não saber estar, é tanta coisa. Há dias assim. Faço tristes quem não merece. Complico o que é fácil. Não sei fazer nada. Nada me sai bem. Há dias assim.

Esta pintura enquadrada na temática dos retratos (adoro fazer retratos) tem a postura que considero mais própria para fazer da arte pictórica um mar de interrogações e considerações estéticas. Prefiro que os olhares dos retratados estejam direccionados para outros horizontes, como forma de criar dúvidas sobre o que se passa para lá do espaço pictórico. Histórias … da minha pintura.

E vos deixo com um excerto de um poema de Florbela Espanca, inA Mensageira das violetas”:

“ …Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d`alvorada!...”

sábado, 25 de julho de 2009

Os modos




Acontece. Um gesto. Uma palavra. Um silêncio. Actos simples que dizem tanto e significam ainda mais. Significam os nossos modos. Os melhores e os piores. Assim comunicamos. Ora bem, ora muito mal. Ora estamos em sintonia, ora aquilo que parecia ser, afinal não é. Somos assim. Capazes de maravilhar e de desiludir.

E vos deixo com um excerto do poema Atitude de Cecília Meireles, in Viagem:

"Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
Como o luar que entra numa sala..."

O feitiço



Acreditamos ou não, nisto e naquilo, se tivermos capacidade de fazer uma auto-análise das crenças ou da falta delas. Muitas dúvidas resultam somente do não saber; da ignorância; do fundamentalismo, e da nossa incapacidade de discernir. As dúvidas acabam quando a luz da razão explica cientificamente o mistério da dúvida, no entanto, porque o mundo tem tantas incertezas e nos julgamos diferentes e maiores que a simples matéria universal que nos caracteriza, continuamos, eternamente, a acreditar no feitiço.

Esta aguarela trata de um feitiço tão comum aos seres deste planeta.

Termino relembrando neste excerto poético de Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa) in, Para os Deuses as Coisas São Mais Coisas:


“Para os deuses as coisas são mais coisas.
Não mais longe eles vêem, mas mais claro…”

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Encontros felizes





É mesmo assim. Os dias, os meses, os anos, as vidas passam num sopro e, dessa passagem, temos encontros. Encontros felizes. Encontros felizes é ter estado na hora certa no sítio certo; é ter visto este ou aquele acontecimento; é ter vivido uma sensação única num contexto inesquecível; é ter conhecido gente singular que nos moldaram; é ter encontrado quem se julgava não existir; é tanta coisa, ou, talvez não.

Esta pintura, feita com tons cinza, procura ser depurada, num enquadramento onde a perspectiva (que gosto de utilizar) é acentuada com as linhas do chão que sugerem profundidade. Histórias… da minha pintura.

E vos deixo com as palavras de Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa) num excerto de, A Espantosa Realidade das Cousas”:

"A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta..."

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O imaginário





Hoje temos uma necessidade premente de conhecer fisicamente o outro. Basta, por vezes, uma simples fotografia. A imagem diz tanto e diz tão pouco. O outro, o desconhecido, tem um modo de estar, tem uma voz, tem um cheiro, tem uma corpulência, tem uma idade, tem isto e aquilo. Uma foto dá apenas a imagem que nos mostra só uma parte do retratado, no entanto, chega e sobeja (às vezes), para catalogar e destrinçar.

Os grandes obreiros nem sempre mereceram, no seu tempo, o reconhecimento não só social, mas também afectivo. Beethoven, Chopin e Tchaikovsky (para falar só de músicos) exprimiram os sentimentos no trabalho que produziram e que se reconhece de grande genialidade; eles, uns simples humanos, com as angústias e as tristezas dos seus anónimos semelhantes.

Os grandes, aqueles que se elevaram nos altares da fama pela obra, também têm os defeitos de todos nós: egoístas, mentirosos, interesseiros, gananciosos, invejosos, eu sei lá. Somos todos iguais. Uns mais criativos; outros mais sortudos; outros ainda procurando eternamente o caminho em busca do imaginário.

Esta aguarela retrata um cenário de imaginários destinos. Mais uma vez utilizei os meus brinquedos para entrarem na minha pintura. Os ateliês de Paula Rego e Rembrandt mostram os objectos que naturalmente se incorporaram nas pinturas e que, por estarem ali tão perto, acabaram por retratar imaginários destinos. Histórias da pintura…

E vos deixo com a poesia de Fernando Pessoa, in Cancioneiro:

Dizem que Finjo ou Minto

“Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração…”

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Carrossel da vida




Quando fui a Paris a primeira vez vi um lindíssimo carrossel. Este divertimento de feira esteve sempre presente nas minhas vivências. Quando era menino e moço, todos os anos, via extasiado a vinda dos feirantes; mais tarde, em terras de África, um carrossel - por falência do dono, segundo julgo saber, repousou anos a fio perto de minha casa. Depressa transformámos aquele local em ponto de encontro. Era ali que, quase diariamente, me reunia com os meus amigos, todos nós adolescentes em busca da maioridade. Por paradoxo e sem consciência eminente, o carrossel mais não era, mais não é, que a simbologia da artificialidade da selva, do bulício citadino e do desejo da alegoria do partir. Pois bem, foi esse despertar em Paris, que acompanhado das minhas recordações de criança, me fez regressar ao passado. Chegado a Portugal, depressa percorri as feiras, olhando o carrossel e daí surgiu a série das festas populares.
Viver primeiro, sentir depois e recordar para sempre.


Esta aguarela tem como elemento principal (porque se situa ao centro e se destaca pela cor) um brinquedo que simboliza um carrossel e as restantes figuras representam as vidas … cinzentas.

E vos deixo com a voz de Piafh em “Sous le ciel de Paris


terça-feira, 21 de julho de 2009

Marcas da vida



Recordamos os bons e os maus momentos. As nossas memórias são tão empoladas. Ficam aqueles instantes que mais nos cativaram. Exagerados, quantas vezes. Ainda bem. Os maus, os maus momentos com as agruras, as tristezas e as maleitas fazem parte das memórias que nos servem para aprender. Aprender a não repetir os mesmos gestos, os mesmos disparates, as mesmas incertezas, as mesmas coisas. Mas não vale a pena. Somos o que somos. Uns dias bem, outros não. Uns dias contentes com a luz, com os amigos, com a vida. Outros dias infelizes com a existência, com o tempo errado, com os amores desencontrados, com o mundo ao contrário. Enfim, marcas da vida.

Em 96, data da feitura deste desenho, fiz muita pintura enquadrada numa temática rural, de acordo com a paisagem circundante à época. Primeiro desenhava e colocava cores no papel dos muitos blocos de desenho e, também, repetia, sem fim, os mesmos temas até encontrar a imagem ideal. Depois era pintar partindo do desenho. Histórias da pintura…da minha pintura.

E vos deixo com um excerto de um poema de António Gedeão – Poema da Eterna Presença, in Poemas Póstumos:

“… O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo…”