domingo, 19 de julho de 2009

Os mitos





Eles são tão grandes que até parecem de uma outra galáxia. De um outro mundo. Outros seres. Têm tudo: reconhecimento, adulação, riqueza, beleza, glória, génio e misticismo. Têm tudo. Aparentemente. Tudo têm: angústias, tristezas e dores. Muitas dores. Como os comuns mortais. Eles são mortais!
Longe da ribalta os nossos mitos são tão iguais, mesmo iguais a todos. É a natureza dos Homens. Felizmente. Eles, os mitos, são aqueles que se tornaram conhecidos e reconhecidos. No seu tempo ou fora dele. Gente do saber, das artes, da política, do pensamento, das ciências, da valentia ou da falta dela, disto e daquilo. Os mitos, os nossos mitos, são o nosso julgamento dos valores. Dos maiores e dos menores. Hoje os mitos são de trazer por casa. Mitos que não resistem ao fátuo tempo. Mitos que são, afinal, juízos críticos sobre o sucesso ou a fraqueza. Os mitos dos nossos dias retratam apenas os feitos que gostaríamos de fazer, e que outros, por nós fizeram. Pobres mitos.

Esta aguarela retrata os nossos heróis transformados em mitos. Mitos de trazer por casa.

E vos deixo com as palavras extraídas da Ilíada de Homero quando diz Nestor, o velho condutor de carros:
“… mas nunca os deuses dão tudo ao mesmo tempo aos homens…”

sábado, 18 de julho de 2009

Momentos de ternura



Cada instante é um momento. Uns são de ternura, outros não. Guardamos uns e outros. Coleccionamos recordações dos bons e dos maus momentos. Momentos há que, quando recordados, nos deixam com sentimentos do tempo vivido, e que, jamais, se apagarão da memória por muitos e longos anos. Felizmente.

Esta tela, pintada em 2008, retrata um daqueles momentos.

E vos deixo com a música de Villa-Lobos, aqui cantada por Bidu Sayão :
– "Bachiana nº 5 – Cantilena”.



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Brinquedos de lata





É sempre assim. Nunca valorizamos o que comungamos na abundância. O que nos é dado, o que nos é oferecido, é menorizado porque não foi obtido pelo suor, pelas lágrimas, nem pelo sangue. Ter, depois de lutar para se ter, é bem diferente. É a nossa sina. Valorizamos muito os desejos e aquilo que não temos. Desprezamos tanto, o que outros, com enorme sacrifício fizeram para conquistar. Sempre assim foi, e, talvez, sempre assim será. Infelizmente. Para mal dos nossos pecados.

Lembro-me, como se fosse hoje, nas feiras, de ver brinquedos de lata. Rústicos, mas belos. Anos depois olhei para eles com outros olhos e comecei a juntá-los. Ao coleccionar depressa passaram para os meus desenhos, e destes, para as telas. Histórias da pintura…, da minha pintura.

E vos deixo com um excerto de um poema do escritor, poeta e cronista nascido em 1911 e falecido em 1993- Manuel Fonseca, in Menino:

“No colo da mãe
A criança vai e vem
Vem e vai
Balança.
Nos olhos do pai
Nos olhos da mãe
Vem e vai
Vai e vem
A esperança.
…”

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A vida é bela











Não vou dizer quase nada. Estes desenhos e esta música dizem quase tudo.


E aqui vos deixo com Wolfgang Amadeus MOZART: Piano Sonata No. 16, K545, 2nd mov.


Fernando Pessoa escreveu in O Livro do Desassossego: " A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação."



Significância e insignificância




Nunca fui dado à miudeza das questões, dos factos e dos acontecimentos. Para mim, o importante é a substância do conteúdo. Entendo que o nosso viver é tão breve que, pelo simples facto de vivermos tão pouco, devemos tirar sempre partido do fátuo tempo que é a nossa existência. Sou como sou: esquecido das datas, dos nomes, das coisas tal como foram e são; em suma, não sou de confiar pela ligeireza do meu olhar o mundo. Eu sou assim.

O meu amigo e escritor Cipriano, delicado como sempre, não contestou o meu erro crasso: enganei-me no seu nome – não se chama Catarino Cipriano -, chama-se: Cipriano Catarino. Trocadilhos. Trocadilhos de quem tem, de forma continuada, feito o seu percurso. Percurso que tem um só lema: amar sempre o belo em todas as suas vertentes. Só me resta pedir perdão, a todos, por tanta significância e insignificância dos maus actos. Eu sou o João Alfaro.

E vos deixo com um desenho, dos muitos estudos preparatórios que fiz para ilustrar o livro do Cipriano Catarino : -“ Entre Cós e Alpedriz”-, livro que li, num ápice, dado retratar (como poucos o sabem fazer), o mundo bucólico que guardo com a saudade da infância perdida.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Bem dizer, mal dizer





“… Heitor, filho de Príamo,…Eurimedonte, filho de Ptolomeu,...Méon, filho de Hémon,…Equepolo, filho de Talísias,… Elefenor, filho de Calcodente,…Simoísio, filho de Antémion,…Democoonte, filho bastardo de Príamo,…Tritogénia, filha de Zeus,…Diores, filho de Amarinceu…” Assim se falava de quem era quem. Outros tempos. Tempos da Ilíada de Homero que escreveu estas palavras no ano de 725 a.C. É o bem dizer.

Hoje, no século XXI, é o Dr. António, o Juiz Pontes, o Capitão Caetano, o Arquitecto Duarte, o Engenheiro Ernesto e assim sucessivamente. Novos tempos. Em primeiro lugar coloca-se a profissão ou curso e, depois, o nome do próprio, sem a identificação sublinhada do ramo descendente. Pobres pais. É o mal dizer.


Esta pintura de pequenas dimensões, reflecte as características do diminuto formato. Estas obras precisam de ser trabalhadas com pincéis muito finos e obrigam a um cuidado acrescido nos pormenores pequeníssimos e, neste caso, confesso, é apenas um estudo prévio de um pormenor de uma outra tela, essa sim, de dimensões substancialmente maiores. Segredos da pintura…

E vos deixo com as palavras de Kafka, in Carta Ao Pai:

“…Sempre te quis bem, mesmo quando parecia não agir contigo como os outros pais, precisamente porque não sou capaz de fingir como os outros…”

terça-feira, 14 de julho de 2009

Segredos do ofício 2







Cada obra tem um modo de começar. Se as dimensões são pequenas, os estudos prévios, podem até não ocorrer. Tudo acontece, logo ali, num jogo de construções e destruições. Se, porventura, a obra é de maiores dimensões, ou se implica um jogo intrincado de formas mais complexas, então, os estudos prévios multiplicam-se, até se chegar ao conjunto final que se julga esteticamente correcto.
Estes dois desenhos mostram um iniciar. Foi assim que surgiu a ideia de fazer “ Uma casa no campo”. Primeiro fiz esboços diferenciados e depois escolhi um deles. A tela nasceu do desejo de retratar um ambiente que me é familiar. Um ambiente de saudade. A saudade sempre presente.


E vos deixo com as palavras de Alberto Caeiro (Heterónimo de Fernando Pessoa), in “Poemas Inconjuntos”. Do poema "Gozo os Campos sem Reparar para Eles":

“ Gozo os campos sem reparar para eles.
Perguntas-me por que os gozo.
Porque os gozo, respondo…”