terça-feira, 30 de junho de 2009

Segredos da pintura





Adoramos segredos sejam eles de que natureza forem. Um segredo é sempre um segredo. A inveja e a hipocrisia fazem o resto. Há segredos de Estado, militares, industriais, artísticos e de alcova. Estes últimos são os mais apreciados e os de menor importância (sob o ponto de vista do progresso social); aliás, não têm importância nenhuma, excepto para os envolvidos. Numa palavra: Adoramos. Adoramos segredos.



Hoje ficamos fascinados perante a beleza criada pelos pintores no Renascimento italiano, pois bem, a maravilha da ilusão da perspectiva só foi possível com a invenção da câmara escura. Se, se, olhar bem para aquelas pinturas tão fascinantes destaca-se a escala, por excesso, das personagens pintadas. O tamanho é demasiado grande. A explicação é simples: - a máquina precursora do projector de diapositivos tinha os defeitos que tinha, ou seja, deformava a imagem dos modelos que se colocavam perante o artista. Coisas da tecnologia ou da falta dela. Em suma: segredos da pintura.

Esta obra, acrílico sobre tela, foi pintada em 2002 e é o resultado de séculos de descobertas que se iniciaram com Giotto (1266-1337) e que continuaram até aos nossos dias com a invenção da máquina fotográfica,da televisão, do cinema, do vídeo, do computador e do digital.

E vos deixo na companhia da música sempre sublime e genial de Chopin. É mais um “Nocturno, Opus 27#2”, piano.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Estado de alma










Hoje, ao olhar para esta aguarela, lembrei-me de um belíssimo poema, lido em tempos idos, e que pela autenticidade do sentimento expresso, me parece corresponder ao que busco neste meu trabalho. Tudo o que possa dizer será perturbador e atentatório da mensagem tão eloquente e sentida do amor perdido. E vos deixo com as palavras do António José Queirós - “Soneto da Inquietação” -, e com a música de Claude Debussy -“Claire de Lune”-, tocado ao violino por David Oistrakh em Paris no ano de 1962 e com Frida Bauer ao piano.





Soneto da inquietação

Olho a ponte, olho o rio, mas não vejo
quem meus olhos procuram cegamente;
corre o tempo, fica a dor e o desejo
que o mundo se acabe de repente!

Passa um dia, outro dia, já não sei
por onde se perdeu meu pensamento;
caem sombras nos sonhos que sonhei
debruadas de mágoa e esquecimento.

Com a vida, por vezes, não me entendo,
nem com seus alados véus de ilusão.
E enquanto o meu mundo vai morrendo,

em saudosas vigílias de paixão,
recordando o passado vou vivendo
numa louca e amarga inquietação.









domingo, 28 de junho de 2009

Luas


Esta aguarela é uma homenagem a todas as mulheres que vendem o corpo nas noites de luar.

Amsterdam







Num passado recente passei férias na Holanda. Eu vi paisagem, pessoas, arquitectura, bares, ruas, noite e, naturalmente, muitos museus. Jamais me esquecerei dos moinhos que fazem parte do mundo bucólico; do maravilhoso e do fantástico. Vi as flores, as tulipas sobretudo, os campos cheios de vaquinhas mas, mas também vi as montras onde as mulheres se vendem. Vi o melhor e vi o pior.


Vi extasiado A Ronda da Noite quadro pintado por Rembrandt (1606 -1669) e que marca a queda social do genial pintor. Vi maravilhado o museu Van Gogh (1853-1890) e não deixei de pensar que, quarenta anos antes, era eu ainda uma criança, me ofereceram um livro de mais de trezentas páginas: As Cartas de Van Gogh. O livro foi lido num ápice, tal o meu desejo de me identificar com a pintura. Coisas do passado.


Hoje lembrei-me do Jacques Brel e da canção Amsterdam.



sábado, 27 de junho de 2009

Cinco minutos






O que vos peço são só cinco minutos. Cinco minutos da vossa vida. Cinco minutos.

Se porventura acharem que não têm cinco minutos do vosso tempo - cinco minutos -, então, não têm tempo algum, nem nunca terão, para apreciar o que há de mais belo e sublime, nas vossas vidas em todas as circunstâncias. Pensem bem. Só vivemos uma vez, embora alguns julguem que não.
-Que são cinco minutos na vida de uma pessoa? É tão pouco e é tanto. Em cinco minutos nada se faz. Em cinco minutos podemos definitivamente mudar a nossa vida. Para sempre.

Ouçam em cinco minutos este trecho de ópera cantado por Callas em Paris em 1958 " Vissi d Arte" e ficarão diferentes. Definitivamente.

Em cinco minutos nada muda, e, tudo pode mudar, em cinco minutos. Cinco minutos!

Barcelos







Estive uma única vez em Barcelos nos anos 80. Foi um fartote. Comprei e comprei artesanato na linha da tradição expressiva deixada por Rosa Ramalho. As carantonhas pintadas com cores fortes fizeram as minhas delícias. Mais uma vez, a exuberância cromática, a liberdade das poses e dos gestos grotescos conquistaram-me. Vivo rodeado destas peças que ainda hoje, sempre que as observo, me seduzem. Obras de Júlia Côta e Rosalina Baraça, entre muitos outros, fazem parte do meu espólio. Eu sou uma esponja que absorvo tudo. É graças ao trabalho simples, autêntico e verdadeiramente genuíno do sentir, do pulsar deste povo, traduzido neste artesanato, que eu busco as minhas referências.

Como esponja que sou, estes meus desenhos, julgo eu, traduzem as influências que recebi da minha viagem a Barcelos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O primeiro gesto





Todos os dias, quando chego ao meu ateliê, o meu primeiro gesto é ligar a aparelhagem. Se a rádio não transmite a música que gosto, nem a entrevista que me cative, então, escolho, na minha lista de discos, aquilo que quero ouvir. O meu silêncio é a música. Não vivo sem a musicalidade, todos os dias. Sou um melómano dependente; eu que tenho por lema, não ter vícios, não ter dependências.
Hoje quero comungar convosco este vídeo que é a expressão da genialidade musical de Jules Massenet (1842-1912) tocado por Nathan Milstein -“Meditation.”