sexta-feira, 26 de junho de 2009

Londres, 1995





Não vou falar de Londres.

Não vou falar das visitas sem fim aos museus. Não vou falar das exposições que vi. Não vou falar dos passeios. Não vou falar da ida à ópera. Não vou falar dos concertos. Não vou falar dos bares e cervejarias. Não vou falar da parada militar. Não vou falar da poluição nas ruas. Não vou falar que comi tanta, tanta carne de vaca, antes de saber da doença das vacas loucas. Não vou falar do metro. Não vou falar de compras. Não vou falar do sentir e ouvir o inglês autêntico. Não vou falar da sensação de ter estado no centro do mundo. Não vou falar da paisagem humana e das cores de uns e outros. Não vou falar da riqueza. Não vou falar da pobreza.

Falo do prazer da música que trouxe de Londres nestes cds e das caixas de tintas que ainda hoje estão quase novas. Falo do ouvir, dias a fio, os excertos musicais, desta caixa que comprei na capital britânica e que comigo levo, muitas vezes, quando vou de carro. Falo do desejo de pintar, em guache( e por isso comprei a caixa de guaches), após ver um trabalho lindíssimo de Picasso numa galeria. E mais não falo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Apesar de tudo






Apesar de tudo, apesar do que já se conquistou, apesar de tanto viver, apesar do saber adquirido, apesar de tudo, o mundo que é tão belo com os campos verdejantes, com o mar encantador e um céu deslumbrante; apesar de tudo, tanta angústia, tanta tristeza.


Não sei explicar, sei que ao ouvir - Gnossiennes No 1-, música de Erik Satie, sinto uma angústia, uma tristeza; no entanto, porque é bela não resisto e ouço e ouço, apesar de tudo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Saber Dizer




Eu tenho tanto para dizer. Não sei como dizer. Umas vezes faço aguarelas; outras pinto em grandes formatos quando o tempo é mais longo e cheio de luz; outras vezes, então, escrevo. Outrora, era nos meus cadernos que construía teorias, agora, salpico aqui frases, neste caminhar desenfreado.
Quando me faltam as palavras recorro a Fernando Pessoa e ao livro O Livro do Desassossego. Está lá tudo, com a precisão de quem sabe dizer, o saber dizer.

"...Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios - tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo do deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas..."

Ateliê




Bacon (1909-1992), um dos grandes pintores ingleses do século XX, um dia entrou numa casa, não virada para sul, ou seja, sem luz directa, e ficou, de imediato, magnetizado com o espaço. Ali teve a percepção que aquele seria o seu ateliê. Resultou. Foi lá que trabalhou e trabalhou com afinco deixando uma obra, considerada pela crítica contemporânea, das maiores dada a sua singularidade.

O espaço propriamente dito era de meter medo, de acordo com um vídeo televisivo. Tudo aquilo era imundo. As tintas estavam espalhadas pelo chão, as portas serviam de paletas, os materiais caoticamente dispersos por todo o lado numa penumbra nada propícia ao gostar de usufruir do espaço. Bacon sentia-se bem lá e produziu obra. Resultou.

Mondrian (1872-1944) nasceu na Holanda e mais tarde, o pintor, viveu na América. O seu ateliê é o paradigma da arrumação absoluta. Tudo naquele espaço estava no seu lugar milimetricamente colocado. Outros modos de ser e estar.

O meu ateliê é demasiado bonito. Bonito demais para um ateliê. Aqui tenho um sofá, uma televisão (que só serve para ouvir o canal Mezzo), o computador, uma mesa para escrever e pintar aguarelas, estantes com livros e muitos, muitos quadros. Esquecia-me dos meus brinquedos. Eu sou assim.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Viagens de Sonho





O ir por terras novas em busca do desconhecido é, por si só, uma procura do ideal da fruição. Dos prazeres terrenos viajar, por aí, na descoberta sabe lá do quê, é a afirmação da procura da diferença e do desejo de chegar a prazeres de vivência que não temos no nosso habitat. O desconhecido, o diferente, chega e sobeja para nos encantar e fazer construir castelos de sonhos. Como gostamos de sonhar. Sonhar com reinos de príncipes e rainhas encantadas, onde a beldade suprema, o prazer e a perfeição absoluta são a única vivência real. Como é bom esquecer as agruras, as maleitas e a fealdade das coisas e dos actos e partir por aí em busca do capricho e do esquecimento. Como é bom sonhar com o sonho.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Alegrias e Tristezas






Neste cruzar constante, onde o planeta é cada vez mais pequeno, conhecemos tanto. Tantos se cruzam no nosso deambular citadino e caminheiro em busca do elixir. Uns tornam-se nossos; outros, tão próximos de nós, estão porém distantes pelo não saber daquilo que nos une. Aqueles que acabam por fazer parte da nossa roda de conhecidos, amigos e companheiros são afinal o nosso universo. Parecem muitos e são bastantes nas alegrias do prazer; mas tão poucos nas desgraças da dor.

domingo, 21 de junho de 2009

Beijos



""Ouvia gabar os beijos,

Dizer deles tanto bem,

Que me nasceram desejos

De provar alguns também..."



Júlio Dinis in Serões Da Província