domingo, 21 de junho de 2009

Educação






Educar é fazer com que outros sigam regras e princípios que julgamos correctos e salutares. É só isto. Tudo muda e, as atitudes e valores, valem o que valem em contextos e épocas diferentes. Comunicamos uns com os outros, de modos e com tratos diferenciados. Utilizamos processos e posturas de acordo com o meio, as circunstâncias e, naturalmente, de acordo com a moda.
A nostalgia não deve fazer parte do querer estar no passado que desapareceu. O que lá vai, lá vai. Assim é, e assim será sempre, queiramos ou não. O passado é o passado. A nossa memória só quase nos dá o que de bom aconteceu na viagem que realizámos, no passeio que fizemos, na festa que comemorámos; no entanto, como sempre acontece, os nefastos episódios deixam-nos com mágoas no momento dos factos, todavia, quando olhamos para trás, queremos só ver o melhor, o belo e até inventamos maravilhas que nunca existiram senão produto da nossa imaginação.
Hoje quero, com esta tela, falar de um modo cortês de bem amar que, só no passado distante, uns viveram e, outros, jamais saberão o que é a gentileza do saber estar e viver educadamente.

sábado, 20 de junho de 2009

Pessoas




Conheci gente e gente. Um mar de gente. Recordo com saudade uns, e outros, gostaria de os esquecer. Das pessoas que me marcaram, assinalo familiares que partiram e que me deixaram um vazio; tenho presente os amigos que, apesar da distância e do tempo, continuam fiéis ao espírito da camaradagem e do saber respeitosamente dialogar na diferença; estão comigo, no meu íntimo, professores e colegas que paulatinamente me presentearam com gestos de cortesia; agradeço aos que, pela minha postura, me consideraram merecedores do conviver, nem que fosse pontualmente. A esses, só posso estar grato, por ter usufruído, de momentos comuns.

Tenho nomes que um dia irei desvendar. A minha família será, obviamente, a primeira referência. E se falo deles é porque os pintores têm, através dos tempos, pintado os seus. Também eu pintei o meu círculo em diferentes momentos. Picasso pintou os filhos ainda bebés. Eu também pintei os meus.

Só gosto de pintar amigos e pessoas que me são próximas. A pintura, para mim, tem de ser o melhor ofício dos ofícios e para que assim seja - as pessoas de quem gosto - participam do e no meu trabalho.

Passado, Presente e Futuro





Demoro muito, demasiado até, a tomar consciência dos caminhos. Busco tanto que a busca se torna um labirinto, e assim é exactamente, porque, adoro a labiríntica procura. Hoje nada tenho em comum (se tenho não descubro) com o que fiz num passado recente e, muito menos, num passado longínquo. Quanto ao futuro, que farei eu enquanto criador?

Oscar Wilde escreveu no livro A alma do homem sob o socialismo:
“…O presente não tem importância. É no futuro que temos que pensar. Pois o passado é o que o homem não deveria ter sido. O presente é o que o homem não deveria ser. O futuro é o que são os artistas.”

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Dança




Não sei dançar. É um dos meus desgostos. E tenho muitos. Muitos. Um deles, é de não saber acertar o passo - o passo da dança. Incapacidade absoluta. Os meus pés tornam-se pesados, os movimentos presos e a liberdade dos gestos não fazem parte de mim.

Vivi rodeado de muita dança. Adoro a dança. Descobri, Rudolf Nureyev, muito jovem ainda e passado mais de trinta anos, não me esqueço, nem me esqueci da elegância e dos seus gestos subtis de dançarino, que fazem parte do meu gosto, pelo saber estar e como estar na dança.
Tango, danças de salão, festivais de dança e bailado fazem parte do meu imaginário de gustação pessoal. Do imaginário. Da realidade, não!

A minha realidade é a de criar obras que falem e expressem a dança, apesar de saber, quão longe fico do sentir de quem vive, no momento, o prazer da dança. É a vida.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Catálogos






Um dia um pintor amigo, para surpresa da minha parte, exigia ao galerista catálogos extra num número que achei, na altura, uma enormidade. Trezentos catálogos! Trezentos? Para quê? Tantos, com que fim?

Recordo agora que fiz, já faz um par de anos, uma exposição, da qual guardo um carinho especial pelo significado e importância, no que foi o meu trabalho, a partir daí. Dessas obras, nada tenho. Não tenho registos, não tenho fotografias, não tenho catálogos, não tenho pinturas. Nada. A exposição teve catálogos que se evaporaram nas mãos de quem visitou a galeria; as fotos tiradas no evento estão algures não sei bem onde; e as notícias nos jornais, essas, não fiz questão de arranjar e guardar. Hoje, compreendo esse meu amigo. Ele tem um historial do seu percurso devidamente documentado. Eu, pelo contrário, despertei tarde. Aqui e agora me confesso. Eu sou o João Alfaro.

Nota: para que não restem dúvidas falo da exposição realizada em Ponte de Sor na então Biblioteca Municipal Calouste Gulbenkian e lá está uma pintura da minha autoria.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A voz

A voz de Dieskau


Longe vão os tempos do silêncio e do saber escutar. Desde menino e moço que, por razões que desconheço, nunca fui dado à auscultação de certos sons. Quando se é jovem, o desejo de pertencer a grupos, a tribos de comportamento e a posturas radicais fazem parte da afirmação e da formação social. Queria ser rebelde como todos os meus amigos e companheiros de carteira, mas, mas com a música, não! Ao contrário do meu círculo de amigos rejeitei sempre, sempre os sons do rock. Os sons estridentes, as vozes roucas, as luzes estonteantes e os ambientes de dependência nunca fizeram o meu género. A música clássica tinha de fazer parte de mim. Quando descobri a música do Tschaikowsky, ao ver um filme sobre o compositor russo, tinha encontrado o meu caminho musical. Quando ouvi Dietrich Fischer-Dieskau descobri a voz - a maior, das maiores vozes.